Segredos do Vaticano
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de março de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Segredos do Vaticano
É mais fácil obter uma devassa nos segredos do Vaticano, cuja abertura está programada para o ano que vem, do que conhecermos a caixa preta das instituições públicas ou a do transporte urbano em nosso cotidiano. Se não houvesse a Lava Jato e dependêssemos das estaduais nada teria ocorrido, pois a tradição da justiça estadual e dos seus órgãos de controle (o Tribunal de Contas foi citado como área de distribuição de recursos da Rodonorte ao lado da central das pedagiadas) é de só agir subsidiariamente, induzida por órgãos externos. A exceção nessa cortina de cordialidade é o Ministério Público estadual por alguns dos seus braços e que por muitos acabam olhados como malditos por afinal romperem a tranquilidade dos rituais consuetudinários. Tanto que suas atuações, embora a densidade das denúncias (a quadrilha do fisco estadual, os ladrões dos desvios das construções escolares, sob suspeita de drenagem de grana ao caixa 2 eleitoral), não dão respostas como as da justiça federal, que produziram a cortina sanitária no governo Beto Richa e por essa intervenção podem ter decretado o fim da carreira política de vários dos seus componentes, mormente o principal deles.
Nem sempre os vasos comunicantes da Justiça funcionam. As apurações da Lava Jato em relação aos crimes contínuos na relação sórdida entre as concessionárias e os órgãos do governo paranaense, tidas como essencialmente normais, deveriam servir de exemplo para atuações em todo o sistema, porém isso ocorre em menor escala.
Mas essa não simetria entre o federal e o estadual é uma das nossas deformações históricas que vêm desde os governos gerais e as capitanias donatárias, fragilidades da nossa incipiente experiência republicana minada pelo patrimonialismo. Não é diferente o que se dá aqui em relação ao Maranhão, Alagoas, Ceará e mesmo em unidades modernas como São Paulo persistem esses fatores que travam o nosso desenvolvimento e que também a Lava Jato cuidou de devassar ante o tucanato de lá, mais malicioso e sutil do que o nosso, isso visível na demora das apurações de delitos iguais e correlatos e no lenga lenga da condenação do Paulo Preto e que subsidiava, dentro do Rodoanel, algumas das carreiras, inclusive de postulantes presidenciais.
Oposição fragmentada
Ainda padecendo do nocaute eleitoral sofrido, a oposição tenta se reaglutinar. O PT, a maior força, quer singrar nas águas revoltas da reforma previdenciária e comandar as ações mais significativas nas duas casas do Congresso, especialmente na Câmara Federal, em que divide com o PSL (que não levou vantagem na sequência de troca-trocas) a condição de maior bancada. O tom de resistência é radical, não vendo na medida as melhoras trombeteadas pelas forças do mercado. Se esse tom for agudo demais tornará o agrupamento isolado da pregação das castas funcionais (servidores públicos de um modo geral, militares, magistrados e procuradores de justiça, que devem levar ao extremo seu direito de reação). Ficou claro para todos que o lulopetismo é a expressão maior do antibolsonarismo, posto que os de tonalidade menor, como PDT, PCdoB e PPS estejam na escala da arregimentação. Haverá também a pressão de confederações, como a Nacional dos Trabalhadores em Educação, com o édito, palavra de ordem: "aumentar o tempo de trabalho é um crime contra os professores" e que terá sentido especial no Paraná por movimentar a nossa maior organização sindical pública, a APP.
Sabe-se que a reforma é indispensável, mas a partilha de sacrifícios é o problema, pois nem todos da pirâmide têm algo a dar. Resta saber que tipo de marketing o governo empregará para persuadir os resistentes. Quem pensa em moleza pode tirar o time de campo. Marajás já avisaram, diante de propostas tímidas de Fernando Henrique Cardoso, que mexiam nos níveis de contribuição previdenciária, que aquilo era confisco e o Judiciário concordou. Não é nada desprezível o ponto de vista do Dieese, expresso quarta-feira (6) na nossa Página da Educação: "Só os bancos ganham com a PEC da Previdência". Tonalidade pouco radical, mas ajustada ao ponto de vista do trabalho nessa contingência, anticapitalista na essência. Ajuste-se aí a intenção de financiamento de até R$ 10 bi por estado para imposições da reforma por bancos mundiais, assegurada em garantia da União.
Começo igual
Diz a tradição que o ano só começou na quarta, com o fim do carnaval. E pergunta-se como estariam os governos federal e estadual para a arrancada. Até agora persistem afinidades entre Ratinho Junior e Bolsonaro, os dois ainda com forte capital político, mas acumulando desgastes - o federal bem mais que o estadual, com as laranjices, com as operações do ex- assessor Queiroz, suspeita de vínculos com milícias. As daqui são de menor impacto e carentes de confirmação. Dos dois esperamos o arranque.
Folclore
Se até segredos de três décadas do Vaticano podem ser revelados, por que não fazermos uma rotina do fim das caixas pretas da área pública? A transparência é um risco necessário, embora o excesso de luz possa levar a outro tipo de cegueira, aquela que move os fanáticos.


