A negociação que não aconteceu durante a greve parece distante mesmo com o fim da paralisação. Ao contrário do que vinha afirmando sistematicamente o prefeito Nedson Micheleti (PT), nas últimas semanas, a administração ainda não pensa em formar uma comissão permanente para analisar a pauta com 28 itens de reivindicação.
A contradição entre o discurso e a prática foi explicitada ontem pelo secretário municipal de Gestão Pública, Jacks Dias. Na avaliação dele, o retorno imediato ao trabalho de 100% do funcionalismo sinaliza tão somente que o atendimento à população será, acredita ele, normalizado. ''Em termos de negociação, continuamos com a mesma situação: já não tínhamos condições de atender a questão financeira, e agora ela se agravou (em decorrência da greve)'', afirmou Dias.
Há pouco mais de duas semanas, o próprio secretário afirmara à FOLHA, em entrevista no prédio da Companhiade Habitação de Londrina (Cohab), que os aspectos não financeiros da pauta de reivindicação seriam analisados em eventual negociação, caso a categoria desistisse do movimento. ''Houve uma greve de minoria, e ainda não temos condição de analisar (a pauta). Ela tem várias amarras em relação à negociação financeira'', alegou o seretário, no final da tarde de ontem.
Questionado se a administração formará, e quando, a comissão permanente prometida pelo prefeito via imprensa e ao coordenador do MP em Londrina, Cláudio Esteves, Dias resumiu: ''Não tenho condição de estar afirmando isso. Vamos ter que estar analisando e pensar com carinho, mas sempre estivemos abertos ao diálogo'', sustentou. Durante os 106 dias de greve não houve nenhuma reunião com representantes dos servidores.
A reportagem tentou contato à tarde e início da noite com o prefeito, mas a coordenadoria de Comunicação da Prefeitura disse que Nedson não se manifestaria. A justificativa é que ''o secretário (Jacks Dias) fala em nome do prefeito'' neste assunto.
Antes mesmo das declarações de Dias, servidores paralisados até ontem se mostraram céticos, ao final da assembléia, sobre uma possível reposição das perdas inflacionárias. ''Desde o mandato passado ele vem enganando nós e a população'', criticou o segurança Mário Soares Fogaça, 51, da Secretaria de Cultura. Para ele, a desmobilização enfraqueceu a paralisação, mas trouxe ''conhecimentos''. ''A gente volta desanimado ao trabalho, mas bem mais informado do que a lei nos garante e de tudo o que acontece na Câmara de Vereadores'', destacou.
O motorista Aparecido Alcides Lopes, 53, lotado na secretaria de Obras, também não acredita em melhoria salarial. ''Se até a Justiça está contra a gente! Não, pelo menos nesse mandato, não'', lamentou. (J.G.)

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