O secretário de Estado da Fazenda, Giovani Gionédis, disse ontem que ‘‘não é o momento’’ de a Assembléia Legislativa gastar com a compra de carros importados para os novos parlamentares. O presidente da Assembléia, deputado Aníbal Khury (PFL), pretende adquirir 22 luxuosos Passat VR6, importados da Alemanha, ao custo médio de R$ 74 mil por veículo. Isso representará cerca de R$ 1,6 milhão aos cofres públicos. Khury disse que o dinheiro sairá de ‘‘sobras de caixa’’ do Legislativo.
Arquivo FolhaEspantoAlbuquerque, da OAB: ‘‘Meu Deus do céu!’’De acordo com Gionédis, a Assembléia tem liberdade para fazer o que quer com o dinheiro do orçamento repassado pelo governo à casa. ‘‘Mas acho que não é o momento porque o ano é de turbulência e o Crafe (Conselho de Reestruturação e Ajuste Fiscal do Estado) tem cortado despesas. Até para a aquisição de carros da Polícia’’, argumentou Gionédis, à Folha.
Segundo o secretário, o Estado repassa 3% de sua receita líquida à Assembléia. O Paraná tem uma receita anual de R$ 4 bilhões/ano. Gionédis disse que o cálculo para se chegar à receita líquida é ‘‘especial’’ e disse que não se atreveria a informá-lo ‘‘sem segurança’’. Fontes da Fazenda consultadas pela Folha estimam que, descontados os repasses, a receita líquida deve ser de R$ 3 bilhões/ano, o que representaria, para a Assembléia, uma transferência de R$ 90 milhões/ano. Isso equivale a R$ 7,5 milhões/mês.
Arquivo FolhaIrrealidadeOrsi, da Acil: ‘‘Eles vivem fora do Brasil’’O recurso anual recebido pela Assembléia para pagar salários de deputados e servidores, além da manutenção da casa, é quase equivalente ao que arrecadou a Prefeitura de Londrina no ano passado - R$ 141 milhões. Com esse dinheiro, a Prefeitura banca a folha de cerca de 8 mil servidores, mantém a máquina administrativa e a cidade, de cerca de 500 mil habitantes.
O anúncio sobre o gasto com novos veículos para a Assembléia causou reações de perplexidade e repúdio e pode possibilitar até questionamentos judiciais. ‘‘Meu Deus do céu! Não tem paradeiro isso? Já ganharam cartório e agora também querem carro de luxo?’’, indignou-se ontem o presidente da seção Paraná da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Edgard Luiz Cavalcanti de Albuquerque, referindo-se à aprovação da lei que permitiu a vitalicidade para donos de cartórios, grande parte deles nas mãos de deputados e seus familiares.
Albuquerque ficou sabendo da notícia através da Folha e disse que pretende ter detalhes para publicar, antes da eleição, o nome dos deputados beneficiados com os carros. ‘‘Vamos ver se eles se elegem’’, provocou. Sobre a provável inexistência de licitação para a aquisição dos Passats, ele também reagiu. ‘‘Isso me parece impossível. Agora, se for verdade, isso é infração penal’’, analisou.
Arquivo FolhaComunidadeRosalina Batista: ‘‘E a nossa ambulância?’’O procurador do Estado em Curitiba e colunista da Folha, Joel Samways, disse ontem que a compra dos importados pela Assembléia é fora de propósito. ‘‘Num momento nacional de preocupação com os gastos públicos, quando os representantes do povo deveriam dar o exemplo, dão demonstrações de esbanjamento e gastança’’, criticou. Na avaliação dele, mesmo que o País fosse de Primeiro Mundo e o Paraná um Estado riquíssimo, ainda assim a compra seria questionável. ‘‘Afinal de contas é dinheiro público, dinheiro do contribuinte’’.
O presidente do Tribunal de Justiça do Paraná, desembargador Sidney Zappa, esteve ontem em Londrina, mas não quis comentar a aquisição dos veículos pela Assembléia.

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