Secretária defende cloroquina à CPI e contradiz versões de Pazuello sobre tratamento e crise em AM
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de maio de 2021
Renato Machado e Julia Chaib/Folhapress 
Brasília - Em depoimento à CPI da Covid-19, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, fez defesa ferrenha do uso da hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia comprovada para tratamento da Covid-19, e admitiu que a pasta federal orientou médicos de todo o país para que adotassem o tratamento precoce.

Conhecida como "capitã cloroquina", Mayra também apresentou versões que conflitam com as apresentadas à comissão na semana passada pelo ex-ministro Eduardo Pazuello, em particular sobre a crise em Manaus e a plataforma TrateCov.
A secretária, que é médica, presta depoimento à CPI da Covid nesta terça-feira (25) munida de um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal. Ele lhe garante o direito de permanecer em silêncio em perguntas sobre os fatos de dezembro do ano passado e janeiro, quando houve o colapso do sistema de saúde de Manaus, em face da segunda onda da pandemia.
Mayra é investigada em ação que corre em segredo de Justiça do Amazonas. Ela confirmou ter informado à Secretaria de Saúde do Amazonas que era "inadmissível" não adotar a orientação da pasta.
A secretária foi questionada sobre o tema pelo relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL). O senador leu trecho de um ofício encaminhado ao Amazonas no qual estimulava a gestão municipal a usar as drogas orientadas pelo Ministério da Saúde.
"Aproveitamos a oportunidade para ressaltar a comprovação científica sobre o papel das medicações antivirais orientadas pelo Ministério da Saúde, tornando dessa forma inadmissível, diante da gravidade da situação de saúde em Manaus, a não adoção da referida orientação", diz trecho do documento lido por Renan.
Mayra ainda afirmou à CPI que a diretriz do ministério não valia apenas para os médicos amazonenses. "A orientação para tratamento precoce é para todos os médicos brasileiros, não só para Manaus", disse a secretária.
EM DEFESA DA CLOROQUINA
Ela também defendeu pessoalmente a hidroxicloroquina. Disse que, como médica, mantém a orientação "de que a gente possa usar todos os recursos possíveis para salvar vidas". Por outro lado, disse que nunca recebeu ordens para propagar o medicamento.
"Nunca recebi ordens, e a indicação desses medicamentos não é iniciativa minha pessoal", afirma.
Ela depois ainda afirmou que a cloroquina e outros medicamentos foram "criminalizados", com a publicação de dois estudos acadêmicos.
"A gente teve um grande prejuízo à humanidade de pessoas que poderiam não ter sido hospitalizadas e não terem ido a óbito se a gente não tivesse criminalizado duas medicações antigas, seguras e baratas, que poderiam ter sido disponibilizadas e prescritas pelo médico", disse.
A defesa da cloroquina foi rebatida pelo senador Otto Alencar (PSD-BA), que é médico. O senador afirmou que a hidroxicloroquina é um antiparasitário e que portanto não há estudos conclusivos para tratar doença causada por vírus.
"Não tem nenhum estudo que possa demonstrar que foi feita a primeira, segunda, terceira e quarta fase. Além disso, doutora, todos esses estudos têm que ser acompanhados do ponto de vista farmacológico, farmacodinâmico e farmacocinético, para saber como a droga no organismo do paciente desenvolve sua ação. Hidroxicloroquina não é antiviral em estudo sério nenhum no mundo", afirmou.
"Essa insistência de permanecer no erro não é virtude, doutora, é defeito de personalidade. Não é da senhora, não, eu estou me referindo até ao presidente da República", completou.
A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) questionou posteriormente se a secretária se incomodava de ser chamada de "capitã cloroquina". Mayra Pinheiro afirmou que não era adequado, mas indicou que o problema não era a cloroquina e sim a patente militar. "Apenas não acho o termo adequado, porque não sou uma oficial de carreira militar. Sou uma médica conceituada no meu estado. Então prefiro ser chamada de Mayra Pinheiro", afirmou.
Receba nossas notícias direto no seu celular! Envie também suas fotos para a seção 'A cidade fala'. Adicione o WhatsApp da FOLHA por meio do número (43) 99869-0068 ou pelo link wa.me/message/6WMTNSJARGMLL1


