Seca será tema principal de campanha
De cada 10 votos nas eleições de outubro, três virão do Nordeste. FHC e Lula foram duas vezes cada um a região fazer campanha
Agência Estado
Arquivo FolhaMinandoBrizola: em todos os eventos que participa ele critica a atuação do governo com relação a secaDe cada dez votos nas eleições de outubro, quase três virão de eleitores dos nove Estados do Nordeste, que já se transformou no centro da disputa entre o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), candidato à reeleição, e seu principal adversário, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os efeitos de uma grande seca, que já começam a ser sentidos, tranformaram a região - e seus 27,5 milhões de votos - em um tema de campanha tão forte, para a oposição, quanto o desemprego nas grandes cidades.
Fernando Henrique e Lula estiveram no Nordeste duas vezes, cada um, no mês de maio. O Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) concentrou suas atividades no sertão semi-árido, incentivando saques, de acordo com a Polícia Federal, e criando uma situação que deixou o governo nervoso.
O MST conseguiu chamar a atenção para o problema e transmitir a impressão de que o governo foi lento para socorrer os flagelados. O estrago foi registrado pelas pesquisas de opinião que chegam ao Palácio do Planalto.
O Nordeste começará a receber atenção especial do governo a partir de agora. Não se trata apenas de uma forma de neutralizar a ação do MST e o avanço de Lula, que já tem mais intenções de voto que Fernando Henrique em cinco Estados da região (Piauí, Paraíba, Pernabuco, Sergipe e Maranhão), de acordo com o pesquisa do intituto Brasmarket. Em Alagoas o líder é Fernando Collor e no Ceará, Ciro Gomes (PPS). O socorro ao Nordeste virou uma operação necessária para a reversão dos votos na eleição de outubro.
‘‘Vamos transformar o Nordeste em assunto a favor do governo’’, aposta o porta-voz do Palácio do Planalto, embaixador Sérgio Amaral, confiando na eficácia das ações desencadeadas na última semana, como envio de comboios de alimentos e a criação das chamadas frentes produtivas.
Se tudo der certo, dentro de dois meses o governo espera estar colhendo os frutos desse trabalho, no momento em que a seca estiver produzindo seus piores efeitos e com a campanha eleitoral a todo vapor.
Aproveitando idéias da oposição, mas dando-lhe um tom próprio, com divulgação em campanhas institucionais, deverão ser gastos R$ 32 milhões em um programa de alfabetização de adultos.
Cada analfabeto que se matricular deverá receber meio salário mínimo (R$ 65) por mês. O projeto, comandado pelo Programa Comunidade Solidária, já teve início no Ceará. A previsão é de que em seis meses estarão alfabetizados 85 mil adultos. É o custo da distribuição de cestas básicas para 1 milhão de pessoas.
A campanha eleitoral começa, oficialmente no dia 6 de julho. Por enquanto, tudo o que os candidatos estão fazendo contraria a Lei Eleitoral. Lula já correu ao Ceará para visitar regiões atingidas pela seca, transformando sua passagem em um acontecimento político, além de defender os saques de alimentos.
Na quarta e quinta-feira desta semana Lula foi com o vice Leonel Brizola ao sertão de Pernambuco, para muitos comícios mais e novas defesas dos saques.
Por enquanto, quem está na frente no Nordeste é a oposição. É ela quem toma as iniciativas, dá apoio aberto aos saques de alimentos promovidos pelo MST e anda de um Estado para outro denunciando o que seria a omissão do governo no combate à fome e nos projetos emergenciais para reduzir o impacto da seca. Não há um discurso do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, em que o presidente Fernando Henrique Cardoso não seja criticado à exaustão.
As esquerdas espalham por todos os cantos que Fernando Henrique não conhece nada do Nordeste, a ponto de não entender os relatórios sobre a crise, feitos pela assessoria do Palácio do Planalto.
O uso do Exército para a distribuição de alimentos foi uma decisão tomada pelo governo depois de uma das reuniões feitas para estudar as formas de neutralizar a oposição.
A intenção é passar ao sertanejo a idéia de que não precisa participar de invasões para ter a comida. O governo, com a força do Exército, garantiria a alimentação para que os estão passando fome. A oposição, porém, já se preparou para combater a entrada do Exército na distribuição de alimentos e proteção aos caminhões que transportam a carga.
Lula prega, como uma das poucas propostas de governo que as oposições tornaram conhecidas, a reavaliação do papel das forças armadas. Para Lula, não se pode quebrar a ociosidade do Exército com a distribuição de cestas básicas. ‘‘É muito pouco para o nosso Exército’’, afirmou Lula.

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