Se eu errar, me critiquem
Popularidade
Eu não gosto de comentar pesquisas sobre popularidade, porque não se pode governar como se fosse um barquinho que atravessa o Canal da Mancha. Quando a onda sobe, ele sobe. Quando a onda desce, ele desce junto. O governo não é isso. É claro que a gente fica contente quando o resultado mostra que a população está apoiando, mas eu acho que isso não deve levar o governo a pensar que, tendo apoio, posso ou aconteço. Não, tem que ter um programa. Eu acho que a gente tem que ter objetivos, tem que estar convencido deles e tentar convencer os outros.
Reeleição
Desde que eu entrei no governo existe esta história de que fez isso porque está em campanha, fez aquilo porque quer a reeleição. Esta mania de julgar intenções é muito ruim. Se eu fizer alguma coisa errada, critiquem; agora, julgar intenções, não. Até porque eu acho que todos nós temos de ter boas intenções. Podemos errar. A gente não deve estar o tempo todo pensando que o outro está atuando a fim de prejudicar. A reeleição é um assunto do Congresso, que ele deve tomá-la o quanto antes, porque temos problemas muito mais importantes do que este, como as reformas da Previdência, Fiscal, Administrativa, a regulamentação do petróleo, telecomunicações e energia elétrica. Isto é muito mais importante para a vida do País do que simplesmente discutir reeleição. Você acha que ser presidente da República, para quem já é, é uma coisa extraordinária? Não é uma coisa que, do ponto de vista pessoal, motive. O que motiva a gente são outras coisas - é realizar modificações pelo Brasil. Agora, para realizá-las você não vai, obviamente, comprometer a sua forma de conduta e a sua biografia.
Plebiscito
Vou, mais uma vez, colocar minha posição: o Congresso tem competência constitucional para tomar uma decisão. Se o Congresso acha que precisa complementar a força constitucional dele com a opinião do povo, que faça. Se achar que não precisa, não faça. De qualquer maneira, se for aprovada a reeleição e se eu for candidato - é sempre um se, não é automático - haverá ainda o referendo do povo, ele vota ou não vota. Como o povo brasileiro não é bobo, e por mais que tentem confundir e dizer que é uma prorrogação, ele sabe que não é, que é uma escolha. O que vai decidir é o povo mesmo. Eu não quero opinar. Acho que o Congresso deve tomar esta decisão responsavelmente. Vai tomá-la, só peço que tomem logo, para evitar que fiquem uma série de matérias que são da maior importância postergadas por causa deste, perdão, nhén,nhén,néen...
Piores momentos
Houve momentos difíceis. O primeiro foi a questão da crise cambial, em março e abril, depois da crise do México. Depois teve a greve dos petroleiros. Ou eu tomava uma decisão firme, ou não governava, porque havia um desrespeito a uma decisão da Justiça. Acho que foram momentos delicados. Teve também o problema da agricultura. Quanto ao massacre de Eldorado do Carajás, fui para a televisão protestar, mas isso não era de minha alçada. Interpretaram que a população me deu menos apoio ao governo por causa do massacre (referiu-se a uma pesquisa do Ibope que mediu uma queda de popularidade durante o massacre) pode ser, porque era um fato negativo e o presidente da República acaba sofrendo as consequências deste impacto, mas as pesoas que sabem, que têm consciência, sabem eu eu me empenhei. O que estava ao meu alcance foi feito. É fácil criticar. Convocam um tribunal internacional com gente que não sabem nada sobre o Brasil e condenam o presidente, que não tem nada a ver com o assunto. Aí é exploração política, mas a população não embarca nisto...
Proer
Não é um problema, é uma solução. Nunca tive medo do custo político do Proer. Acho que as coisas, quando têm que ser feitas, são feitas. Quem não tiver coragem de enfrentar, não deve se meter a ser governante. O custo você ganha no médio prazo. O Proer foi um instrumento criado para evitar que houvesse uma degringolada no sistema financeiro. Hoje não há mais este perigo. Hoje ninguém tem mais medo de perder sua poupança, os bancos estão funcionando e ganhando muito menos. Houve uma redução brutal da participação dos bancos no PIB, caiu pela metade e muitos deles sofreram consequências, foram fechados, os banqueiros pagaram o preço, nenhum deles se beneficiou quando tiveram seus bens bloqueados, então não há problema nenhum. E o custo do Proer, se comparado a outros países, se pensar que o governo não vai recuperar nada do que emprestou, aliás, emprestou um dinheiro que não é próprio, é dinheiro dos próprios bancos, se não recuperar nada, isso é 1% do PIB. No Chile, devem ter sido gasto 12%. Todos os países tiveram gastos muito maiores. No Brasil, o programa foi bem feito e elogiado em todo o mundo. Aqui, algumas pessoas querem explorar politicamente, dizer que o Proer vai beneficiar banqueiros. Não vai. O banqueiro que fizer besteira, paga.
Futuro da economia
Não fazer previsão econômica é uma medida sábia, porque em geral as projeções não dão certo. Nós não imaginávamos que a inflação fosse menos de 10%, e no orçamento tínhamos imbutidos uma inflação de 14%. O resultado foi que o governo teve problema com isso, porque não teve uma receita correspondente. É dificil fazer projeções. Todas as que eu li dizem que as de 97 serão melhores que de 96. Tomara. Ninguém sabe se vai, depende do que acontece, de como a gente atue, como reaja. Eu acho que, em vez de fazer projeções, tem que estar aparelhado para atuar no momento certo e sempre pensando no que é melhor para o País e para o povo. Eu disse há meses atrás, e me gozaram muito, que no fim do ano vamos estar rolando nossa economia em 6%. Vai ver quanto cresceu a economia no último trimestre. Eu sabia que ia acontecer isso. Não por mister nenhum, mas porque nós tomamos medidas de segurar e depois de soltar. Depois de soltar as condições de crédito etc. O ministro da Fazenda tem dito que para o ano que vem a economia deve crescer de 4% a 5%. Tomara que seja 5%, e que seja possível que se faça isso com controle da balança comercial, sem que isso provoque problemas maiores, e que a taxa de juros continue caindo. Vamos atuar nesta direção, mas não depende de nós, depende também de muitos fatores externos e internos, da população, dos empresários, do consumidor, de que não aconteça um acidente com a safra. Tem muitos porém. Economia é isso, não é uma ciência do tipo exata, é uma espécie de navegação. Nós temos evitados os bancos de areia. Não encalhamos, isso é que é o principal. Estamos tocando e o barco está andando e com boa velocidade.
Desemprego
Apesar de todas as dificuldades em relação ao desemprego, os dados mostram que aumentaram as ofertas de emprego. Isso não quer dizer que não haja desemprego. São duas coisas separadas. Podem estar crescendo o número de postos de trabalho, e ao mesmo tempo pode haver um aumento no nível de desemprego. A cada ano entra um novo contingente e pode estar aumentando muito a oferta, mas ao mesmo tempo ocorrendo o desemprego. Isto aconteceu no Brasil. Este ano, em certos momentos, a taxa de desemprego cresceu, mas já caiu e a taxa neste ano é menor que a de 1994. Comparativamente só os Estados Unidos têm o mesmo nível. Temos ainda um ponto a menos que os americanos e o Japão. Os demais países têm taxas maiores que o Brasil. Não adianta falar num número só, como Ah, aumentou o desemprego em São Paulo. São Paulo está sofrendo um processo particular de reestruturação, não no interior, onde você tem mais empresas, mas na grande São Paulo. Em compensação, no Nordeste houve ofertas de empregos. Está havendo uma mudança na estrutura de produção. Quanto a emprego, nós fizemos um esforço grande, o governo não ficou de braços cruzados.
Investimentos
Este ano vai ser o ano do investimento e do emprego. Mais investimentos. O consumo era necessário, vai continuar havendo, mas precisamos aumentar a taxa de investimento, que já está crescendo. Eu li que o Brasil está recebendo mais investimentos diretos dos Estados Unidos do que qualquer outro país do mundo, inclusive a China. Quando as taxas de investimentos crescem, evidentemente você vai ter uma taxa de crescimento da economia e vai ter uma expansão de empregos.





