Scalco defende venda parcial da Copel
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de agosto de 2001
Carmem Murara<br> De Curitiba 
No meio da onda privatizante que domina o País desde 1995, o diretor brasileiro da Itaipu Binacional, Euclides Scalco, surpreende quando declara e repete aos quatro ventos que não concorda com a entrega da geração de energia para a iniciativa privada. O político paranaense que tem cadeira cativa no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) não se coloca contra a privatização de modo geral, mas condena a venda de setores estratégicos.
Ele sai em defesa da privatização de empresas como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Vale do Rio Doce. Mas é enfático ao tachar como um erro a venda das usinas hidrelétricas da Companhia Paranaense de Energia (Copel). Scalco considera como essencial manter a geração de energia para o desenvolvimento de um país que passa por uma crise energética.
Membro da Câmara de Gestão da Crise Energética, criada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em abril, para evitar o colapso de energia, Scalco avalia que o País adotou um modelo equivocado de desregulamentação do setor. Ele condena, por exemplo, a contratação de uma empresa de consultoria inglesa para fazer a modelagem da privatização no País. A Inglaterra tem sua matriz energética baseada em termoeletricidade, enquanto no Brasil impera a hidroenergia.
Com seu estilo discreto de administração, Scalco comanda hoje a gigante Itaipu que produz 25% de toda a energia consumida no Brasil. Ele foi indicado para o cargo há seis anos, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, com o qual mantém uma estreita ligação de amizade. Quando se sente em meio a uma crise ou com problemas políticos para resolver, é em Scalco que FHC se socorre.
O político da região de Francisco Beltrão e que tem em seu currículo a profissão de farmacêutico, é considerado uma espécie de ''reserva'' do presidente para ajudar na condução do País. Ele já coordenou a campanha eleitoral do presidente por duas vezes, foi convidado para ser ministro de diversas pastas, todas recusadas, e por fim aceitou comandar Itaipu.
Homem de poucas palavras e de estilo reservado, Euclides Scalco está avesso a declarações políticas, principalmente se o assunto é PSDB, partido ao qual ele está desfiliado. Ele prefere não polemizar em torno da crise aberta com a anunciada expulsão do senador Alvaro Dias do ninho tucano. Scalco se reserva o direito de não falar no assunto e nega quando perguntam se está articulando o ingresso do prefeito Cassio Taniguchi (PFL) no partido.
Entrevista mesmo, só se for sobre assuntos econômicos. Foi nesta condição que ele atendeu, rapidamente, um grupo de jornalistas sexta-feira, após uma palestra dada na Copel sobre a crise de energia. A entrevista foi montada com base nas perguntas dos repórteres e com trechos da explanação.
Folha: Há seis meses o senhor declarou que a Copel não deveria ter a geração de energia privatizada. As usinas deveriam ficar com o Estado. Há outras estatais que também deveriam ficar nas mãos do governo, em sua avaliação?
Scalco: Essa é minha posição pública de muito tempo. Já declarei e continuo a dizer que a geração da Copel não deveria ser privatizada. Pela excelência de seus quadros e da sua produção. É questão de coerência. É a melhor empresa de geração, distribuição e transmissão do setor elétrico brasileiro.
Folha: O senhor é contrário à venda da geração da Copel ou do processo de privatização como um todo?
Scalco: Sou contra à privatização da geração. Mas acho que outras privatizações foram importantes. Não havia sentido manter nas mãos do governo empresas como a Vale do Rio Doce e a Companhia Siderúrgica Nacional, porque elas não eram estratégicas.
Folha: Há risco em se privatizar toda a geração de energia?
Scalco: Temo que se todo o parque de geração for privatizado, passaremos a viver como na Califórnia (onde não há energia suficiente e as tarifas são mais caras porque não houve investimento em geração).
Folha: Qual sua avaliação sobre o processo de desestatização do setor elétrico brasileiro?
Scalco: O modelo não está correto, mas é irreversível. Os problemas que temos hoje surgiram com o modelo.
Folha: O que houve de errado?
Scalco: O modelo estabelecido foi feito com base na empresa de consultoria Coopers and Lybrand. Entendo que, embora, ela tenha competência, a empresa é inglesa, onde a matriz energética é térmica. No Brasil temos energia hidrelétrica. Seria mais pertinente contratar empresas de países onde a matriz é hidráulica, como o Canadá ou outros países da Europa.
Folha: O senhor defende a manutenção da matriz energética em hidroenergia?
Scalco: A hidroenergia é a mais barata e a menos poluente. Uma hidrelétrica amortizada é uma fábrica de dinheiro. Quando Itaipu estiver amortizada, a partir de 2023, ela dará US$ 1,7 bilhão por ano. É muito dinheiro, não?
Folha: Os grupos internacionais estão mesmo interessados em investir em geração de energia?
Scalco: Dentro da crise, o importante é que se revitalize o modelo do sistema elétrico brasileiro que foi implantado em 1997, com a privatização da distribuição e, agora, com algumas geradoras. Se tiver regras claras, o capital privado virá. Nós temos a Usina de Belomonte (Pará) que é enorme com 11 mil megawatts. A Companhia Vale do Rio Doce já manifestou interesse enorme para participar em consórcio da construção desta usina. Uma potência como a Vale, fala-se que ela teria um participação em um terço da obra. Isso é uma forma muito efetiva de que teremos aumento destas instalações.
Folha: O senhor fala que seriam necessários até 2010 ter pelo menos 46 mil megawatts de energia no País. Qual a previsão de ter essa quantidade?
Scalco: O planejamento do Ministério de Minas e Energia estima que se houver crescimento de 5% na economia há condições de termos os 46 mil megawatts, em obras que serão realizadas pela iniciativa privada e com a participação do setor público. Se ocorrer um crescimento de 6% precisaremos de 53 mil megawatts para que se abasteça o mercado brasileiro que está demandando muita energia.
Folha: Já há uma previsão de quando terminará o racionamento?
Scalco: Havendo regularidade da chuva, o racionamento de 20% vai até dezembro, no máximo. Evidentemente que tem de entrar novas usinas e geração de termelétricas.
Folha: Levando em consideração os estudos da Câmara de Gestão da Crise de Energia. Se não houver chuva, a situação vai piorar e poderemos entrar no plano B (que prevê os apagões)?
Scalco: Os reservatórios da Região Sudeste desde maio até agora estão estáveis por causa do racionamento nesses Estados. Mantendo o racionamento de 20% há expectativa que não se coloque em prática o plano B, quer dizer, o corte. Os meses mais críticos são agosto e setembro. No fim de setembro começa a chover no Centro-Oeste. Esperamos que não aconteça a crise do ano passado, novamente, com contenção de chuvas. A série histórica mostra que haverá chuva neste período, reestabelecendo o nível dos reservatórios.
Folha: A população vai conseguir manter a economia de 20% no consumo de energia? Afinal, já houve um certo relaxamento em vários Estados onde vigora o racionamento?
Scalco: Houve um pouco de redução do consumo. Isso ocorreu porque, nos primeiros meses, a mídia esteve muito presente na questão do racionamento e do consumo. Isso levou a população a economizar. Agora a mídia está se retirando, porque o assunto deixou de ser novidade. Está faltando um estímulo à população para que ela volte a economizar como economizou até o mês de julho. Mas isso está sendo feito pelas campanhas institucionais que vão começar na próxima semana. Eu tenho certeza que a população vai continuar respondendo aos apelos.
Folha: O Sul terá que aumentar sua cota de economia de energia por causa do racionamento?
Scalco: Não há nenhuma decisão. Pedimos que o Sul economize 7%. Isso ajudaria as usinas que estão no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul a mandar mais energia para o Sudeste. Hoje elas estão mandando em torno de 2.100 megawatts. Quanto mais economizarem no Sul, mais água fica no reservatório e garante o abastecimento para o resto do País.


