Scalco assume a tarefa do unificador
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domingo, 14 de junho de 1998
José Fernando da Silva Mari Tortato 
Albari RosaHomem forteEuclides Scalco diz que assume o cargo com a disposição necessária para enfrentar dificuldades de percursoDesembarca amanhã em Brasília o coordenador político da campanha para a reeleição do presidente Fernando Henrique. Com 65 anos, Euclides Scalco afirma que responde a um apelo do amigo presidente. Sem Sérgio Motta, Fernando Henrique não pensou duas vezes em levar de volta para seu lado Scalco e o ex-senador José Richa.
Na última sexta-feira, Scalco recebeu a reportagem da Folha em seu apartamento, em Curitiba, e concedeu a seguinte entrevista:
Folha O senhor que não aceitou um cargo político no começo do governo - aceitou a Itaipu, até por ser um cargo mais técnico -, como se vê agora na posição de coordenador político da reeleição de Fernando Henrique?
Euclides Scalco - Eu fui convidado na última eleição para ser coordenador da campanha de Fernando Henrique. Não aceitei por motivos pessoais, mas participei ativamente da campanha. Depois da eleição, coordenei o grupo que acabou criando a Comunidade Solidária.
Folha Qual é o caminho que o presidente Fernando Henrique deve adotar nesta campanha de reeleição?
Scalco Quem vai estabelecer as diretrizes de campanha é o grupo político formado pelos representantes dos partidos da aliança. Isto vai ser discutido a partir de agora. No próximo sábado, temos as convenções PFL, PSDB e PPB e até o final do mês sai a convenção do PMDB. O PTB não se sabe como vai ficar, está havendo negociação. Só depois disso, os representantes indicados por partido vão discutir o caminho da nação no próximo governo.
Folha Desde o anúncio de que o sr. retorna à ação política eleitoral, o sr. tem repetido que não volta à militância partidária. Mas vai se envolver de corpo e alma numa campanha. Não há aí um paradoxo?
Scalco Não há um paradoxo. Estou aceitando o convite de um companheiro de lutas de mais de 20 anos. Eu não tinha o direito de dizer ao amigo Fernando Henrique que não participaria, num momento de baixa.
Folha Então é a resposta ao apelo do amigo?
Scalco Não poderia deixar o amigo desde as campanhas do PMDB. Participamos juntos de discussões políticas, no MDB, no PMDB, na fundação do PSDB. Fomos líderes, eu na Câmara, ele no Senado, no mesmo período. Me convidou para ser coordenador da campanha em 94, que eu não pude aceitar.
Folha A morte de Sérgio Motta deixou o presidente frágil de parceiros, de retaguarda que ele tinha?
Scalco Deixou. A relação de Sérgio Motta é muito mais antiga que a minha. Vinha da Universidade de São Paulo. E a morte de Luís Eduardo (Magalhães), como articulador político na Câmara, também foi um fardo muito pesado.
Folha O senhor está sem partido, ainda que todos os vejam como um tucano. Qual será a sua exata função na campanha?
Scalco Coordenador político. Como eu não tenho filiação partidária, fica mais fácil de coordenar os representantes de outros partidos.
Folha Foram praticamente três anos de estabilidade no índice de popularidade do governo Fernando Henrique nas pesquisas. Agora esta queda brutal e o empate com Lula, seu adversário mais direto. Como o senhor analisa estas pesquisas?
Scalco Esta queda tem várias razões para ter acontecido. A reforma dos ministérios e os episódios que ocorreram: a seca, o incêndio em Roraima, a morte de Sérgio Motta e Luís Eduardo. Todas estas coisas abalaram o presidente. É lógico que isto vai ser recuperado.
Folha A reforma do ministério influiu no quadro partidário de apoio a Fernando Henrique?
Scalco Não. Eu acho que as negociações para os ministérios foram um pouco tumultuadas. Tanto é que o presidente suspendeu tudo para reiniciar uma semana depois.
Folha Fernando Henrique não cometeu o mesmo equívoco de outros governos com negociações imediatistas com os partidos aliados?
Scalco Quando você não tem um partido majoritário, você tem que negociar com os partidos. Nos Estados Unidos, com os partidos Republicano e Democrata, quando presidente ocupa sua vaga já chega com a maioria. Aqui no Brasil não. Com o pluripartidarismo, você tem bancadas que o líder é líder de si mesmo.
Folha Mas essa forma de negociação não deixa o governo atado ao fisiologismo?
Scalco O toma-lá-dá-cá que se fala, mas não se tem comprovação destas situações... Tudo é negociação. Tenho um exemplo muito claro: quando o presidente Collor assumiu, nós votamos o confisco da poupança. A proposta do governo era de deixar na conta dos correntistas cinquenta mil cruzeiros. Nós tínhamos uma emenda de cento e cinquenta e o PMDB de 300. Nós negociamos com o governo a aprovação de 150, que liberava 92% dos correntistas. Os 300 mil cruzeiros liberavam 95%. O PMDB exigiu os 300, como estávamos juntos fomos à votação e perdemos. Então, o PMDB e o PSDB resolveram dar quórum e votar contra, em quanto outros partidos de esquerda se retiram do plenário.
Folha A aliança PSDB e PFL favorece mais a que ideário, liberal ou social democrata?
Scalco Ela favorece ao momento histórico que o mundo está vivendo. Eu me refiro a todo o processo de globalização. Com a queda do regime socialista, você tem um vácuo total. Você não tem o contraponto do liberalismo. Essa abertura que se está fazendo internacionalmente de todo o esquema de relações comerciais, levou o País ao que nós estamos vivendo. Os países se interrelacionam e formam blocos. Nafta, a União Européia, que já tem a moeda única. O Bloco Asiático e Mercosul aqui... É um momento histórico diferente daquele que vivemos há 10 anos, quando se fundou o PSDB.
Folha Daquilo que prevê o programa do PSDB, o que não está sendo cumprido em função da aliança com o PFL?
Scalco Aquilo que se falava do Estado do Bem Estar Social, que se iniciou na Alemanha, na França, enfim, na Europa, que está se mostrando incapaz de responder situações. Tanto que você tem crise na área de previdência e saúde nesses países todos, com déficits enormes. O momento é outro e é preciso buscar alternativas dentro deste contexto mundial.
Folha O senhor acredita que Fernando Henrique vai ser reeleito com facilidade?
Scalco Sim. Eu tenho a convicção que ele ganha a eleição no primeiro turno. Em quatro meses ele consegue. Tem um contingente enorme da população que, numa circustância momentânea, está desacreditando no processo político. À medida em que se for esclarecendo aquilo que foi feito e o projeto de futuro, esta população volta para o Fernando Henrique.
Como amigo de horas difíceis ou nos momentos de glória, Euclides Scalco assume amanhã o cargo de coordenador político da campanha do presidente Fernando Henrique Cardoso. Nos próximos quatro meses, ele terá que resolver todas as equações propostas pelos aliados e já começa enfrentando alguma resistência do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães. Mas ele deixa o cargo de diretor-geral da Itaipu sem abandonar o espírito crítico. Para Scalco, assim como para ACM, o governo erra ao não se comunicar de forma eficiente com a população. Sua avaliação reforça análises de que o governo Fernando Henrique sofre os efeitos da falta de ação imediata ante problemas como a seca e a fome no Nordeste, e o incêndio que destruiu boa parte da floresta do Estado de Roraima. Durante a campanha, ele vai atuar ao lado de José Richa, que fará o papel de peça de articulação. Scalco, por sua vez, vai comandar um staff composto por políticos apontados pelas lideranças dos partidos aliados. Será uma tarefa difícil, admite, mas garante que tem disposição de sobra.
Militância começou em 1960


