Brasília - Num dia de muita expectativa quanto ao desfecho de uma crise que se arrasta há mais de três meses, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), ignorou os vários apelos de parlamentares por sua renúncia e adiou para hoje o discurso que deveria fazer ontem para anunciar sua posição definitiva. ''Não houve renúncia nem dia do fico'', sintetizou o senador Tião Viana (PT-AC), para quem a crise será uma ''longa agonia'' para Sarney e também para o Senado.
Após o bate boca do dia anterior entre o senador Pedro Simon (PMDB-RS), árduo defensor do afastamento de Sarney, com os alagoanos Renan Calheiros (PMDB) e Fernando Collor (PTB), ontem foi um dia de ressaca. Desta vez, oposição e situação baixaram o tom. Os senadores Renato Casagrande (PSB-ES), José Agripino (DEM-RN) e Sérgio Guerra (PSDB-PE) insistiram no afastamento do presidente da Casa. Mas o discurso mais veemente veio do tucano Arthur Virgílio (PSDB-AM), que fez uma sugestão insólita a Sarney: ''Case-se com sua biografia'', aconselhou.
Após duas horas sob tensão à frente da sessão, Sarney deixou o plenário aliviado e satisfeito por ter sobrevivido mais um dia. Sorridente, ele cumprimentou um por um os senadores, inclusive Virgílio e outros de oposição que encontrou pela frente e saiu pela área privativa, protegido por seguranças.
No discurso em que mais uma vez pediu a saída de Sarney, Arthur Virgílio olhou sempre para o presidente do Senado. Ele mencionou o fato de Sarney ter sido presidente da República, presidente do Senado pela terceira vez, senador de cinco mandatos e personagem importante da transição do regime militar para a democracia civil. ''Este mandato de Presidente da Casa não representa nada para vossa excelência.''
Ele observou que a insistência de Sarney em permanecer no cargo é ''uma luta inglória'' que ''mancha'' o currículo do senador. Virgílio não fez referências dieretas às acusações que pesam contra Sarney, mas citou as irregularidades praticadas no Senado nos últimos 14 anos e atribuídas a Agaciel Maia, que foi diretor-geral da Casa nesse período, nomeado por Sarney. Virgílio disse que essas irregularidades criam um ''ambiente de ingovernabilidade'' no Senado e mencionou projetos importantes que, por causa do clima reinante, não estão sendo votados, como a reforma política e medidas econômicas de grande interesse para o País.
Sarney ouviu Virgílio em silêncio e, no final, disse apenas: ''Amanhã (hoje), terei oportunidade de responder ao discurso de Vossa Senhoria''.

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