RUTH BOLOGNESE
Sob o domínio da irrelevância
Um grupo de deputados vai viajar nesta semana, no mais tardar na próxima, para Assunção, a capital do Paraguai, em busca de rastros e provas da participação do secretário de Comunicação do governo do Paraná, Airton Pissetti, na campanha eleitoral do nosso menor e mais próximo vizinho. Como a missão é oficial, quem vai pagar a conta somos nós, os contribuintes.
Diante da irrelevância do tema e do equívoco da viagem, com toda a sinceridade, este dinheiro seria muito mais aproveitado se os ilustres deputados fossem fazer uma fezinha no Cassino Costanera, instalado no exclusivo Golf Club da capital paraguaia. Pelo menos a gente teria a certeza que alguém se divertiu na parada. E até poderiam levar junto uma equipe da TV Sinal de Gato, nascida e criada para mostrar aos paranaenses os feitos da Assembléia Legislativa. Assim, veríamos na telinha imagens das árvores centenárias que cobrem os belos casarões de Assunção, naquela parte ainda senhorial e ibérica.
Ao buscar provas do que já está declarado e assumido, os deputados Ney Leprevost (PP), Marcelo Rangel (PPS) e Plauto Miró (DEM), capitaneados pelo grande líder do PSDB, Valdir Rossoni, transformam, pra variar, picuinhas em assunto grave de Estado, com o único objetivo de apertar mais um pouco o calo do pé esquerdo do governador Requião. Se trouxerem uma foto do Pissetti maquiando o bispo Fernando Lugo (candidato da esquerda à presidência) para gravar um programa na TV paraguaia, em plena terça-feira de trabalho no Palácio Iguaçu, vão exibi-la no plenário da Casa do Povo.
E daí, minha gente? O que vai mudar na face da terra ou mesmo do Centro Cívico? ''Nádia''. É fuxico de comadres que só apequena a função parlamentar.
Se tivessem um mínimo de bom senso e capacidade para exercer o ofício para o qual foram eleitos, os membros deste grupinho do qual se fala poderiam seguir um outro caminho, na mesma Assuncion e prestar um serviço ao Paraná e ao Brasil: neste período eleitoral paraguaio, os três candidatos à presidência, o generalíssimo Lino Oviedo, o bispo vermelho, Fernando Lugo e a ex-ministra Blanca Ovelar prometem se eleitos, no mínimo, examinar com mais rigor o Tratado de Itaipu, obra jurídica montada em plena ditadura, tanto brasileira quanto paraguaia e que viabilizou a construção da maior hidrelétrica do mundo na traseira do mapa do Paraná.
Eis aí, portanto, um assunto que poderia mobilizar nossos deputados em torno das eleições vizinhas. Qualquer mudança no eixo Brasil-Itaipu-Paraguai nos afeta diretamente e, em sã consciência, quem é que pode dizer que sabe algo mais sobre a maior hidrelétrica do mundo do que o número de turbinas (20) e o orçamento anual de quase R$ 5 bilhões?
Um exemplo: hoje tanto Brasil como o Paraguai recebem US$ 120 milhões anuais por conta dos royaties da Itaipu. O candidato Fernando Lugo propõe passar US$ 240 milhões que beneficiaram o país vizinho e o Paraná, sobretudo. Alguém aí do grupinho viajante da Assembléia Legislativa tem algo a dizer sobre isso?
É mais do que óbvio e previsível que, seja lá quem for eleito presidente no Paraguai, trará o assunto para o debate. Técnicos da Itaipu e do Itamarati já se debruçam sobre o assunto para subsidiar o governo brasileiro. Enquanto isso, os deputados arrumam as malas para ir a Assunção recolher provas sobre a participação do Pissetti na campanha. Façam o favor! É de matar a mãe do guarda!
P.S. Ontem, enquanto fechávamos esta edição, os deputados perdigueiros incluíram uma nova investigação para a viagem a Assunção: levantar a participação do governador Requião numa tramóia de contrabando de soja paraguaia. Algo tão insólito e absurdo quanto inócuo. Se quiserem fazer oposição, minha gente, vão se preparar, pelo amor de Deus.
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