O meu amigo Alceni Guerra
  Há que se fazer um pacto entre amigos, quase um pacto de sangue, laço firmado com força a lembrar como exemplo aquela antiga história do sujeito desvairado que chega pro melhor amigo e diz: ‘‘Matei minha mãe’’. E o melhor amigo conclui, imediatamente: ‘‘Alguma coisa a velhinha deve ter feito de errado’’. Amizade é mais perene do que o amor e, quando verdadeira, reprisa o sentimento absoluto e irrevogável, o de mãe.
  Daí que, ao se falar de um amigo, é preciso relevar quase tudo. Escrevo hoje sobre um amigo, talvez o mais antigo que tenha feito neste caminho de tropeços que é a tarefa diária de noticiar a política do Paraná. Falo aqui do deputado de várias legislaturas, ex-ministro, ex-chefe da Casa Civil e ex-prefeito de Pato Branco Alceni Guerra. Homem de gestos delicados, fala mansa e abraço apertado. Elegante no trato, elegante no vestir, mais elegante ainda na intrincada leitura da realidade brasileira. Figurino perfeito, portanto, para vestir a imagem de liderança estadual e nacional dentro de qualquer partido político e com duas vantagens a mais: pessoalmente, uma mistura de carência afetiva permanente (olha o abraço apertado) e uma bela estampa, na linha de Toni Blair, o primeiro-ministro dos ingleses, que agora se despede da rainha.

De prefeito a ministro
  Assim, com tantos pontos positivos acumulados, Alceni Guerra, gaúcho de família bem de vida, voou rápido na carreira e mais rápido ainda tornou-se ministro importante da era Collor. Daí pra frente, a história é conhecida, calcada em bicicletas e guarda-chuvas, que o derrubaram do alto escalão de Brasília com detalhes tão picantes quantos inesquecíveis.
  Foi no retorno de Alceni ao Paraná, depois da queda, e num tempo em que escândalos políticos ainda encerravam carreiras e deprimiam os acusados, que o mero contato profissional tornou-se amizade. A visão de um homem no fundo do poço, quase sem forças, mas disposto a começar tudo de novo é sempre desafiante para um profissional. Assim foi, assim se trabalhou e Alceni Guerra encerrou o pior capítulo da vida dele com uma eleição histórica na própria cidade, Pato Branco.

Sempre na proa
  Era um novo homem, disposto a realizar um grande mandato de prefeito, purificado pelo perdão social e garantido pelas decisões na justiça, que arquivou todos os processos pendentes. Passados quatro anos, nem sequer concorreu à reeleição porque denúncias de irregularidades na prefeitura eram prenúncio de desastre nas urnas. Novamente vítima das circunstâncias, meu amigo Alceni? Novamente. É da sina. Mas ainda era um nome forte, capaz de ocupar o espinhoso cargo de Chefe da Casa Civil de Jaime Lerner, onde preparou, com esmero, a própria candidatura a deputado federal. Ora, a demarcação do próprio espaço é crucial no dia-a-dia da política, não sinal de deslealdade a um governo. Em seguida a candidatura a deputado federal, perdida por pouquíssimos votos na região de Pato Branco, e eis que Alceni Guerra ressurge na condição de presidente do Lac Tec, o principal laboratório de pesquisa tecnológica do governo...Requião! Mas não era, até ontem, o arqui-inimigo de ontem? ‘‘Era, mas Requião me acolhe num momento difícil da minha vida. Há que se pensar na sobrevivência’’. Bem, os tempos são outros, fidelidade é démodé, etc,etc.
  E quase um ano depois, o mesmo Alceni deixa o Lac Tec sem mais nem menos, envolvido num pequeno escândalo de uso irregular de dinheiro, que nunca ficou muito bem explicado. Saiu de fininho, elegeu-se deputado e voltou pra Brasília. E nesta semana, eis aí a notícia mais surpreendente: Alceni Guerra pretende formar um novo partido político junto com Collor e prepara a decolagem para uma candidatura collorida à presidência.
  O meu amigo Alceni está me revelando que matou a mãe, quer dizer, pretende despertar uma nova onda Collor, de tão triste memória, no País? Como amiga, pode-se até achar que, afinal, a velhinha deve ter feito algo errado, sim. Como brasileira, há que se reconhecer: a carreira política de Alceni Guerra é uma sucessão de incoerências inexplicáveis que, apesar de todas as chances, só podia chegar aonde chegou, junto a Fernando Collor de Melo.

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