RUTH BOLOGNESE
A professora sai em silêncio
Agora, bem no comecinho de Abril, a professora Carmem Franco, da Rede Municipal de Ensino, aposentou-se. Deixou suas duas turmas de 32 alunos, Prézinho e Primeira Série, aos cuidados de novas professoras. Espanhola por nascimento, brasileira por migração, Carmem passou os últimos 28 anos alfabetizando crianças em escolas de bairros de Curitiba. Nunca deixou a sala de aula, nem a escola pública, sequer se interessou por outras turmas, mais adiantadas, porque gostava mesmo era de ensinar a criançada a ler. No meio escolar, entre os que convivem e sabem uns dos outros, Carmem é considerada uma especialista em alfabetização, está entre as melhores do sistema educacional público da Capital.
Aos 52 anos, solteira, Carmem deixou a escola neste Abril porque é assim que deve ser. Ou é assim que determina a lei brasileira. Aposentou-se no ano passado de um período, ou um padrão, como se diz. Neste ano ficou com uma turma de Primeira Série de manhã, e o Prézinho de tarde, ganhando por isso as horas extras, que equivalem a um salário de professor. Como a Prefeitura tem que baixar custos e pagar horas extras para um professor sai caro, contratou mais gente e colocou nas escolas.Para a Prefeitura, nada mais correto do que isso. Para Carmem, ficar sem as horas extras e o salário de um padrão só, é trocar seis por meia dúzia. Ou melhor, é perder dinheiro. Ao se aposentar, tem direito ao salário do segundo padrão, sem o desconto integral do INSS. Optou pelo mais certo.
Com a sobrevivência garantida pela aposentadoria, Carmem ainda é jovem o suficiente para sonhar e realizar. Pensa em ir para a Espanha, onde ainda tem irmão ou em emprestar dinheiro no banco (professor não tem Fundo de Garantia) e abrir um negócio próprio em Curitiba. Só não pensa em voltar para a escola, onde gosta mesmo é da sala de aula, de alfabetizar. Porque, no seu caso, a Lei determina que é hora de ir embora.
A história de Carmem não é triste, nem dramática. Em breve deve superar a saudade que tem dos ômeus aluninhos, como os chama. Gente que foi capaz de levá-la a mergulhar num mar do Caribe pela segunda-vez, sem saber nadar, só para tirar uma fotografia junto de um golfinho e pregar na parede da sala de aula. Ou de fazê-la levar no bolso, durante um ano, todos os dias, um par de luvas cirúrgicas, para socorrer três crianças com Aids que tinha na sala, no caso de algum incidente com os coleguinhas. Gente que a fez aprender, e ensinar a cantar, o ''Coelhinho Bossa-Nova'' nesta última Páscoa com o mesmo entusiasmo com que ouve Caetano, o preferido.
O que é triste, e dramático, para uma Prefeitura, um Estado, um País ou um sistema educacional, é deixar uma professora de qualidade indiscutível como essa, ir embora em silêncio. O que é triste, e dramático, é desperdiçar uma energia dessas, voltada para a educação, que vai durar pelo menos mais 15 ou 20 anos, no mínimo, ir para outro setor de atividades num País de semi-analfabetos. O que é triste, e dramático, é Carmem buscar, aos 52 anos, uma nova maneira de ser útil quando, a cada ano, pelo menos mais 64 crianças brasileiras, paranaenses, curitibanas, poderiam estar descobrindo o mundo através da leitura, graças à eficiência de uma boa professora.
Deve ser assim que não se constrói um País.





