Rural fez empréstimo de fachada a Valério
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sexta-feira, 09 de dezembro de 2005
Fernanda Krakovics<br>Folhapress 
Brasília - Em depoimento à CPI dos Correios, o ex-superintendente do Banco Rural Carlos Roberto Godinho afirmou ontem que os empréstimos concedidos às empresas do publicitário Marcos Valério de Souza foram de fachada para justificar a entrada de altas quantias em sua conta. Ele afirmou ainda que o Banco Central foi complacente com as supostas irregularidades cometidas pelo Rural nesse episódio.
Godinho insinuou que, em troca dos empréstimos de R$ 29 milhões repassados por Valério ao PT, o banco foi beneficiado com aplicações financeiras de fundos de pensão patrocinados por estatais. Ainda de acordo com ele, as empresas do publicitário tinham movimentação de dez a quinze vez maior do que seu faturamento, o que seria um indício de lavagem de dinheiro.
No período em que estive no banco fomos agraciados com um caixa muito alto. Várias fundações [fundos de pensão] aplicaram dinheiro de 2003 a meados de 2004. Isso era comemorado nas reuniões de diretoria, disse ele. Os principais argumentos utilizados por Godinho para afirmar que os empréstimos não eram reais foram suas renovações a cada 90 dias, o fato de Valério não pagá-los apesar de possuir dinheiro suficiente em conta e a falta de provisionamento pelo Rural - reserva de recursos para cobrir eventual prejuízo -, conforme exigência do Banco Central. Se entrava dinheiro e o empréstimo não era pago é porque o empréstimo estava lá para mascarar a entrada de recursos, disse ele.
O Banco Rural afirmou, por meio de nota, que a atual direção do banco apenas renovou empréstimos que já haviam sido concedidos, na esperança de, flexibilizando prazos, reaver uma parte dos créditos. Contrariando Godinho, o banco afirmou que esses empréstimos foram provisionados. A assessoria imprensa de Marcos Valério reafirmou a tomada dos empréstimos mas disse que a administração dessas operações cabia ao Rural, portanto não comentaria as declarações.
O Banco Central, por meio de sua assessoria de imprensa, diz que funcionários e ex-funcionários do Banco Rural não tiveram acesso ao conteúdo do relatório preparado pela fiscalização já que se trata de sigilo bancário. Como resultado dessa fiscalização, afirma o BC, determinou-se que o Banco Rural aumentasse sua provisão para empréstimos cuja probabilidade de inadimplência se mostrava elevada. Tal determinação foi atendida pelo Banco Rural.
Godinho, que trabalhou 17 anos no Rural, era responsável pela área de compliance, que acompanha operações de crédito e procura evitar lavagem de dinheiro. Não caberia a ele aprovar a concessão de empréstimos. O ex-superintendente está desempregado desde agosto deste ano, quando teria sido convidado a sair do Rural porque o banco iria terceirizar o seu setor.
Questionado pelo deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) se dirigentes do BC poderiam ter minimizado o que foi aferido pelos técnicos, o ex-superintendente respondeu que sim. Os principais responsáveis por esse esquema de corrupção são as autoridades monetárias do país. O valerioduto existiu porque houve complacência, especialmente do Banco Central, afirmou o senador Álvaro Dias
(PSDB-PR).


