Brasília - A Mesa Diretora do Senado decidiu ontem abrir processo por quebra de decoro parlamentar contra o senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), mas, ao mesmo tempo, patrocinou uma manobra para dar tempo ao peemedebista para negociar com os aliados a renúncia, que está prevista para a manhã de hoje, e preservar os seus direitos políticos. A reunião da Mesa foi presidida pelo senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que também está sob investigação do Conselho de Ética. A representação para abrir o processo contra Roriz foi feita pelo PSOL.
Roriz foi flagrado em escutas telefônicas, na Operação Aquarela, negociando a partilha de um cheque R$ 2,2 milhões com o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Tarcísio Franklin de Moura. Disse que retirou R$ 300 mil do cheque para pagar uma bezerra chamada Miragem e que, o restante R$ 1,9 milhão devolveu ao empresário Nenê Constantino, dono do cheque. Nem Roriz nem Constantino conseguem provar que o ''troco'' teve mesmo esse destino.
O senador e ex-governador do DF pediu formalmente à Mesa que a decisão sobre a representação do PSOL não fosse tomada ontem e lhe fosse concedido um prazo de pelo menos 48 horas para provar que era inocente. Em vez de lhe conceder o prazo, o que seria considerado ''escandaloso'', disse um senador à reportagem, a Mesa protelou a entrega formal da ata da decisão ao Conselho de Ética, o que permitirá a manutenção de seus direitos político.
Roriz transitou ontem pelo Senado com a carta de renúncia pronta, mas obteve mais um privilégio de Leomar Quintanilha (PMDB-TO), que é o presidente do Conselho de Ética. Quintanilha se comprometeu a notificar Roriz só depois da renúncia. Quando intercedeu junto à Mesa, Roriz chegou a pedir que os senadores aguardassem a investigação do caso pela Procuradoria Geral da República antes de enviar a representação ao Conselho de Ética. Renan Calheiros chegou a consultar o advogado-geral da Casa, Alberto Cascais, para concluir: ''Eu não posso dar um prazo. Seria dar um prazo ao Judiciário.''
Informalmente, Roriz saiu ganhando o prazo mínimo das 48 horas pedidas, uma vez que até o final da noite de ontem sequer a ata da reunião da Mesa tinha sido lavrada pela secretaria-geral. Por causa disso, o processo final de notificação de Roriz sobre a decisão da Mesa só deverá ser concluído na sexta-feira com a publicação de informe no Diário do Senado. A partir daí, também vai se dar a entrega da decisão ao Conselho de Ética para que, em seguida, Leomar Quintanilha notifique Roriz do processo. A partir da notificação, a renúncia é permitida, mas já não é garantida a preservação dos direitos políticos.
Roriz chegou para conversar com os integrantes da Mesa acompanhando de um de seus advogados, Everardo Ribeiro. Na tentativa de seduzir os senadores, Roriz entregou aos colegas uma série de documentos que, segundo ele, atestam sua defesa. Entre os documentos apresentados por Roriz estão cópias do processo sigiloso que está tramitando no Supremo Tribunal Federal (STF).
O ex-governador do DF chegou ao Senado pouco antes das 11 horas para acompanhar a decisão da Mesa sobre seu caso. Deixou o Senado, cercado por jornalistas, por volta das 14 horas, negando que renunciaria ao mandato. Mais tarde, porém, Roriz teria admitido que não tinha outra alternativa, a não ser renunciar ao mandato. ''É renúncia, ou renúncia'', afirmou Roriz, segundo relato de auxiliares próximos.

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