Rival esconde bolsonarismo pois sabe que é ruim para ele, diz petista Coser


LUCAS REZENDE
LUCAS REZENDE

VITÓRIA, ES (FOLHAPRESS) - Disputando o segundo turno em Vitória contra o deputado estadual Delegado Pazolini (Republicanos), o ex-prefeito João Coser (PT) adota um discurso polarizado ao dizer que seu oponente é a extrema direita e esconde isso temendo rejeição.

"O nosso campo é progressista, de esquerda. Eles estão no campo da extrema direita, muito Bolsonaro", diz Coser, que já comandou a prefeitura de 2005 a 2012, e tem apoio declarado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o chama de amigo. LR



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Pergunta - O sr. recebeu apoio público do ex-presidente Lula. Vitória não corre o risco de ficar isolada do governo federal, caso seja eleito?

João Coser - Não acredito em hipótese alguma nisso. Vitória é uma capital, já tivemos experiências bem-sucedidas. Vamos contar com apoio da bancada federal. Temos captação de recursos no BID, na Caixa Econômica, no BNDES. Não acho que, do ponto de vista político, das políticas sociais que precisamos desenvolver, haja risco de isolamento.

Acha mesmo que Bolsonaro tem essa expectativa para com governos petistas?

JC - Espero que ele se comporte como presidente da nação, pensando no conjunto da população.

Lula sempre chama o sr. de amigo. Que atitudes dele o sr. condena?

JC - O governo Lula foi invejável para o desenvolvimento social, com Prouni, Luz Para Todos. Eu poria uma interrogação para não permitir que tantos partidos ocupassem cargos estratégicos.

O Geddel [Vieira Lima, ministro da Integração Nacional de Lula], por exemplo. A gente já conhece a história dele, né? [Foi preso em 2017 após a polícia achar R$ 51 milhões em apartamento atribuído a ele]. Essas coisas que poderiam ter sido mais maduras. Assim como o viceda Dilma [Michel Temer]. Mas isso não estava só no comando deles.

O PT só elegeu um vereador em Vitória, que é sua filha. Como garantir uma boa governabilidade?

JC - Já fiz dois mandatos só com dois vereadores do PT. Mas tive apoio de 14. Vou fazer o mesmo: dialogar e valorizar os mandatos. É preciso compreender a representatividade que os mandatos têm.

O Ibope mostra que o sr. tinha a segunda maior rejeição no primeiro turno, com 35%. A que atribui isso?

JC - Grande parte é por ideologia ou questão partidária. Pessoas que são de extrema direita e bem aliadas ao bolsonarismo. E há uma parcela que pode ser por questão pessoal. Mas, em maioria, são pessoas que pensam em projetos diferentes e rejeitam por conta da minha filiação partidária, que é de 40 anos atrás.

O PT não conseguiu aglutinar uma frente de esquerda. PSOL, PSTU, PSB e PC do B lançaram candidaturas próprias. Por que essa falta de união progressista?

JC - Tenho impressão que isso é muito bom, todos colocaram seus projetos e disputaram. Nesse segundo turno vai ser mais pelo campo ideológico e político. Temos que aglomerar apoios do centro e da esquerda.

O sr. foi buscar apoio do governador Casagrande (PSB).

JC - Ele está vendo como participa do processo. Acredito que, pelo histórico, por ser um quadro do PSB, vai dar certo. E ele sabe que meu adversário é adversário dele. É a extrema direita que pode ir para cima dele em 2022.

O segundo turno será resolvido pela luta polarizada nacionalmente da esquerda e da direita?

JC - A estrutura da outra candidatura é focada nos modelos nacionais. O nosso campo é democrático, progressista, de esquerda. É só ver a migração natural dos apoios. Eles estão no campo da direita, da extrema direita, muito Bolsonaro.

Mas o Delegado Pazolini não se apresenta publicamente como bolsonarista.

JC - Dois fatores: ele é inteligente, sabe que isso é muito ruim para ele. Ele tenta se esquivar disso, apesar de ter perfil e todas as características. E outra: ele sabe que o declínio do bolsonarismo é visível.

Candidatos apoiados pelo presidente perderam de forma vergonhosa. Ele vai esconder o perfil e a história. Ele esteve com equipe de Damares para não permitir que uma criança abortasse. Foi na ocupação de um hospital quando Bolsonaro pediu.

Virou quase uma lenda a construção de um metrô de superfície em Vitória. O sr. prometeu, mas não fez. Como pretende convencer o eleitor de que, agora, cumprirá promessas?

JC - Quando apresentei o projeto, tinha a pura convicção de que era o melhor projeto para a cidade. Mas não fiz porque o conjunto de prefeituras da Grande Vitória e o governo estadual [à época de Paulo Hartung] fizeram a opção pelo BRT.

Meu projeto não saiu vitorioso no conjunto do debate metropolitano. E ele não poderia ser só de Vitória, que é uma ilha. Mas ainda assim, em minhas gestões, eu ampliei duas pistas da ponte da Passagem, ampliei a avenida Fernando Ferrari, a ponte de Camburi. E agora tenho dois desafios: a integração do sistema de passagem de ônibus metropolitano com o municipal. E levar mais ônibus para regiões onde ele não circula, que é na periferia, no alto dos morros.

O sr. promete criar um banco comunitário, que possibilitará que micro e pequenas empresas peguem empréstimos para se recuperar no pós-pandemia. Tem dinheiro em caixa para isso?

JC - É possível. É a nova prioridade zero para 2021. Precisamos manter os negócios de pé. Nossa cidade é prestadora de serviço. Temos mais de 30% dos pequenos negócios com dificuldade de ficar de pé em função da crise econômica e da pandemia. A gente tem obrigação de colocar recursos para recuperação.

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RAIO-X

João Coser, 64



Formado em direito, foi presidente da Central Única dos Trabalhadores no Espírito Santo e participou da fundação do PT. Foi eleito deputado estadual em 1986 e 1990, deputado federal em 1994 e 1998 e prefeito de Vitória em 2004 e 2008. Nos anos de 2015 e 2016 foi secretário de Desenvolvimento Urbano no Governo do Espírito Santo.

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