Risco da política das igrejas é o fundamentalismo
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Rosiane Correia de Freitas<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Como grupo de pressão, as igrejas brasileiras ocupam um papel importante na vida política do país. No entanto, a ação política da religião deve ponderar seus limites e atentar para o risco de se cair no fundamentalismo, destaca o teólogo César Kuzma, diretor do curso de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).
O risco da participação das igrejas na política é que a ação legislativa é para o país como um todo. E o Brasil é constituído por cidadãos que não necessariamente são adeptos de algum credo religioso. E mesmo os que são religiosos podem não levar em consideração a orientação da igreja em assuntos de outra natureza que não os da fé.
Em reportagem publicada ontem, a FOLHA mostrou a dimensão da atuação política das igrejas. Com doações mensais de fiéis da ordem de R$ 1,7 bilhão, de acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Análise, as igrejas cristãs brasileiras têm, mesmo num Estado laico, participado da discussão política no Brasil. Além de elegerem parlamentares e de fazerem lobby, as denominações religiosas contam com um público de 157 milhões de pessoas, suficiente para torná-las um grupo de pressão de grande relevância.
Para Kuzma, as igrejas precisam evitar uma postura fundamentalista, ou seja, aquela que impede o fiel de ter uma certa tolerância em relação a pontos de vista diferentes do seu. ''As igrejas podem até não concordar. Mas quando se discrimina o pensamento do outro o que se está dizendo é que sua postura é melhor. E ninguém é superior a ninguém'', afirma.
O passado, mostra o teólogo, é cheio de exemplos das consequências dramáticas do fundamentalismo, seja de origem religiosa ou étnica. ''Nós tivemos a perseguição aos judeus na Segunda Guerra Mundial. Tivemos, durante o domínio das Américas, o massacre dos povos pré-colombianos porque a cultura europeia se considerava superior à que eles encontraram aqui'', aponta.
Em sua encíclica ''A Fé e a Razão'', o Papa João Paulo II afirmou que é necessário encontrar um equilíbrio entre a crença religiosa e o pensamento racional. ''Quando se perde a razão, não se vai para frente. Quando se perde a fé, não se vai para frente'', explica Kuzma. ''Se o meu princípio religioso é amor ao próximo, mas eu excluo quem não é adepto das minhas ideias, o meu princípio não tem fundamento'', completa.
O teólogo defende que exista um diálogo maduro entre a ciência e a fé. ''Acho que vai crescer o debate sobre a moral'', avalia. Muito embora o Estado brasileiro seja laico, Kuzma acredita que a religião está interligada com o Estado. ''Mas a religião hoje é uma alternativa, uma das várias opções de pensamento. Não uma unanimidade'', destaca.
A influência religiosa na política, avalia, tem aspectos positivos e negativos. ''Os princípios religiosos podem trazer o bem. A religião defende o bem-estar, a justiça, as pessoas'', aponta. Por outro lado, a fé também pode ser usada para o exercício do poder. ''Há quem use para conseguir espaço na televisão, visibilidade na mídia'', diz. ''Esses usam o vínculo religioso em benefício próprio ou benefício exclusivo daquele grupo religioso, o que é um aspecto negativo'', pondera.
''A religião é perigosa porque pode ser usada para manipular as pessoas'', alerta. Só o que pode frear a exploração da fé para outros fins é a maturidade do fiel.


