Brasília - Deixaram sequelas no Planalto as vaias que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu na sexta-feira, no Maracanã, durante a abertura dos Jogos Pan-Americanos. Abatido, ele disse que o ''Rio continua lindo'', mas admitiu que esperava um clima de festa no estádio. ''A única coisa com que eu, particularmente, fico triste é que fui preparado para uma festa'', disse. ''É como se eu fosse convidado para o aniversário de um amigo meu, chegasse lá e encontrasse um grupo de pessoas que não queria a minha presença.''
Em entrevista ao programa de rádio ''Café com o Presidente'', gravado no domingo e divulgado na manhã de ontem, Lula não explicou, porém, que ele fez questão de ser o anfitrião da festa, e não um simples convidado. Nos últimos meses, o presidente gastou boa parte do tempo da agenda para cuidar da preparação dos jogos. O governo federal investiu R$ 1,853 bilhão no evento. Isso ajuda explicar, segundo assessores, o clima de baixo astral no Palácio do Planalto depois de o Maracanã vaiar seis vezes o presidente, algo que não havia ocorrido nem mesmo com o general Emílio Garrastazu Médici, frequentador do estádio em tempos de milagre econômico e crimes contra os direitos humanos.
Decepcionado, Lula chegou a observar que o governo dele ajudou a melhorar a auto-estima dos cariocas. ''Tenho consciência de que o povo do Rio tem sua auto-estima, nesse momento, muito melhor do que tinha três, quatro anos atrás'', disse. Os fotógrafos e cinegrafistas, que entraram à tarde no gabinete do terceiro andar do Planalto, viram um presidente desanimado, com o semblante fechado, visivelmente triste.
O presidente não se animou nem mesmo com os comentários de assessores e ministros de que o público era exclusivamente classe média ou se deixou levar pela suposta claque formada por aliados do prefeito do Rio, César Maia, do antigo PFL. Os assessores espalharam ontem a versão de que Maia recebeu 30 mil convites e os distribuiu entre simpatizantes, que teriam aplaudido o prefeito e vaiado o presidente.
Lula volta ao Rio na próxima sexta-feira para uma solenidade na Academia Brasileira de Letras. Não há previsão de ele participar de qualquer evento do Pan. Antes mesmo das vaias, o presidente havia dito em entrevista no Planalto que só participaria da abertura dos jogos. O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), aliado de Lula, constrangido com o que ocorreu no Maracanã, avalia um desagravo. A ordem no Planalto é ''virar o disco'' e ''esquecer esse assunto'', relatou um ministro.
Na entrevista ao ''Café com o Presidente'', Lula tentou desfazer a impressão deixada nas imagens de televisão, de um homem transtornado e surpreendido com a hostilidade dos cariocas, mas foi difícil. A voz dele era de abatimento. ''Isso não muda um milímetro o meu comportamento'', disse no rádio. ''O Rio a gente poderia dizer que continua lindo'', afirmou. ''Sei que muita gente fica incomodada, para mim a vaia e o aplauso são dois momentos de reação do ser humano'', afirmou.

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