Leandro Donatti
De Curitiba
O ex-governador José Richa (sem partido) disse ontem em Curitiba que não se sente responsável pelo crescimento do endividamento do Paraná. ‘‘Na minha gestão, deixei a dívida do Estado no mesmo tamanho’’, afirmou em entrevista à Folha, por telefone, numa reação ao pronunciamento feito pelo secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, na quinta-feira, durante sabatina na Assembléia Legislativa. O secretário responsabilizou os governos anteriores ao primeiro mandato de Jaime Lerner (PFL) por 74,4% de uma dívida que em junho passado estava fechada em R$ 9,1 bilhões. Gionédis disse que o governo Lerner só é responsável por R$ 2,2 bilhões e que o restante, R$ 6,8 bilhões, foi contraído por ex-governadores, de 1979 em diante.
‘‘O mais grave não é a dívida, mas o que eles estão vendendo’’, criticou Richa. Essa é a segunda vez que o ex-governador reage contra o governo Lerner. A primeira foi no início do ano, quando Richa criticou a privatização da Copel. O ex-governador voltou a atacar o processo ontem. ‘‘No meu governo (83 a 86) fiz um empréstimo de US$ 104 milhões, junto ao Banco Mundial, para investir em eletrificação. Mas a dívida foi paga pela própria Copel na época. Eu fortaleci o setor, não enfraqueci’’, disse. Richa criticou ainda o comprometimento da atual folha de pagamento, hoje de mais ou menos R$ 250 milhões, 70% em média das receitas líquidas. ‘‘Na minha época, não se gastava nem a metade com pessoal’’, assinalou.
Para José Richa, há um erro de comportamento. ‘‘Em vez de diminuir as despesas, o atual governo está aumentando as receitas vendendo o patrimônio. Daqui a pouco não teremos mais nada’’, disse, numa referência aos processos de privatização da Copel, Sanepar e Banestado, em andamento. O ex-governador do Paraná admitiu que o poder público de um modo geral endividou-se nos últimos anos, mas não acredita que o seu governo tenha levado o Paraná a tal patamar. ‘‘Eu paguei mais do que financiei. Existiu uma regra, na época, baixada pelo governo federal, obrigando os governos a pagar pelo menos 30% das parcelas em cada vencimento. Não era permitida a rolagem como é nos moldes atuais’’, observou José Richa.
O ex-governador Alvaro Dias (PSDB), ouvido pela Folha ontem, também disse que mais pagou que financiou. ‘‘Lembro até hoje que deixei algo em torno de US$ 300 milhões a mais do que tomamos emprestado’’, afirmou. ‘‘Na sabatina da Assembléia, o secretário da Fazenda conjugou o verbo mentir em todos os tempos. O governo (Roberto) Requião, que me sucedeu, também não aumentou em tanto a dívida do Paranᒒ, disse. Alvaro disse que na sua gestão fez dois financiamentos internacionais, para tocar os programas ‘‘Paraná Rural’’ e o ‘‘Programa Estadual de Desenvolvimento Urbano’’. ‘‘Deixei uma dívida de mais ou menos R$ 1 bilhão’’, garantiu.
Alvaro voltou a afirmar, com base em informações do Banco Central, que a dívida pública do Paraná dobrou de janeiro de 98 a junho deste ano. ‘‘Cresceu proporcionalmente mais que a do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, São Paulo, e Alagoas. Isso mesmo, Alagoas, que é o paradigma da incompetência’’, observou.Ex-governador rompe silêncio habitual, contesta secretário da Fazenda e afirma que ‘‘mais grave é o que eles estão vendendo’’
Arquivo FolhaPREJUÍZORicha, sobre patrimônio: ‘‘Daqui a pouco não teremos mais nada’’

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