Imagem ilustrativa da imagem Richa é preso pela segunda vez em quatro meses
| Foto: Ricardo Chicarelli/30-6-2017



Curitiba - O ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB) foi preso nessa sexta-feira (25), no âmbito da Operação Integração II, desdobramento da 58ª fase da Lava Jato. Ele foi abordado por agentes em casa, no bairro Mossunguê, por volta das 7 horas, e levado à Superintendência da PF (Polícia Federal), no Santa Cândida. A decisão tem como base suspeita de tentativa de interferência nas investigações, que apuram possíveis irregularidades na administração de rodovias no Estado. Na sequência, o tucano acabou transferido para o Regimento da Polícia Montada, no Tarumã. À noite, a pedido do Ministério Público Federal (MPF), ele foi levado para o Quartel da Polícia Militar, na capital.

Essa foi a segunda prisão de Richa em menos de cinco meses. A primeira ocorreu em setembro de 2018, em plena campanha eleitoral, durante a deflagração da Rádio Patrulha, relacionada a desvios em um programa de modernização e manutenção de estradas rurais. Na ocasião, o ex-governador e então candidato ao Senado foi solto quatro dias depois, por ordem do ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal). O salvo-conduto também beneficiou a esposa do tucano, Fernanda Richa, e seu irmão Pepe Richa. Apenas o ex-chefe de gabinete Deonilson Roldo continuou - e continua - preso.

Nessa sexta, o contador da família, Dirceu Pupo Ferreira, foi igualmente detido e levado para a Casa de Custódia de Piraquara, na região metropolitana. As duas prisões da 58ª fase são preventivas, isto é, sem prazo determinado. O MPF (Ministério Público Federal) cancelou a coletiva de imprensa em que detalharia as investigações, marcada para as 16 horas. Segundo o órgão, o motivo seria o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. Em nota, a força-tarefa disse que os procuradores não falariam mais com os jornalistas "em respeito às vítimas e demais pessoas atingidas pela lama".

DECISÃO

De acordo com o despacho do juiz federal Paulo Sérgio Ribeiro, da 23ª Vara Federal de Curitiba, os suspeitos tentaram influenciar corretores para mudar depoimentos já prestados, o que se configura obstrução. "Ficou comprovado o empenho dos investigados em influir na prova a ser produzida, destacando episódio de turbação/obstrução da investigação, no contexto em que Dirceu Pupo Ferreira tentou convencer uma testemunha a alterar a verdade sobre fatos da investigação acerca do patrimônio da família Richa", diz trecho do documento. Na avaliação do magistrado, tal "fato novo" justifica a prisão, mesmo com a existência do salvo-conduto de Gimar Mendes.

"Diante desses elementos, argumenta o MPF que a prisão preventiva é necessária para a garantia da ordem pública e econômica e para conveniência da instrução criminal", completa o juiz. Conforme o Ministério Público, o ex-governador foi beneficiário de, pelo menos, R$ 2,7 milhões em propinas pagas em espécie pelas concessionárias de pedágio do Paraná e por outras empresas que mantinham interesses no governo. Haveria evidências de que parte do dinheiro (R$ 142 mil) foi lavada mediante depósitos feitos diretamente em favor da empresa Ocaporã Administradora de Bens que, embora estivesse formalmente em nome de Fernanda Richa e de seus filhos, na realidade era controlada por Beto.

IMÓVEIS

O restante dos recursos, aproximadamente R$ 2,6 milhões, teria sido lavado por Richa com o auxílio de Ferreira, por meio da aquisição de imóveis. Segundo a força-tarefa, os bens foram comprados com propinas e colocados em nome da Ocaporã. Para ocultar a origem ilícita dos recursos, o contador solicitava que os vendedores lavrassem escrituras públicas de compra e venda por um valor abaixo do realmente pactuado entre as partes. A diferença entre o valor da escritura e o acordado era paga em espécie, de forma oculta, com propinas.

"Nessas condições, já foram identificados pelo menos três imóveis pagos em espécie pelo contador em favor da Ocaporã. E-mails apreendidos durante a investigação comprovaram que Beto Richa tinha a palavra final sobre as atividades da empresa relacionadas à compra e venda de imóvel", completa o MPF.

Os imóveis seriam um apartamento em Balneário Camboriú (SC); um terreno de luxo no bairro Santa Felicidade, em Curitiba; e conjuntos comerciais no Edifício Neo Business, também na capital paranaense. O primeiro foi adquirido em outubro de 2010, com valor declarado de R$ 300 mil, pago em dinheiro pelo contador ao vendedor de forma parcelada em 2011. O laudo de avaliação apontou que ele valia R$ 700 mil. Comprado em 2012, o terreno tinha valor real de venda de R$ 1,9 milhão. Contudo, a escritura foi declarada por R$ 500 mil, referentes a uma permuta com dois lotes em Alphaville.

Além dos lotes dados como parte do pagamento, Ferreira entregou R$ 930 mil em espécie, que foram ocultados dos documentos da transação. Depois, o imóvel foi vendido pela empresa Ocaporã por R$ 3,2 milhões. Já os conjuntos comerciais foram adquiridos em novembro de 2013. O valor declarado na escritura pública foi de R$ 1,8 milhão. Porém, de acordo com o MPF, houve o pagamento de R$ 1,4 milhão "por fora".

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