Arquivo FolhaRespingosO ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, descansa na Europa enquanto sua assessoria nega o envolvimento dele com Wagner RamosAs revelações feitas na quarta-feira pelo banqueiro Fábio Nahoum, durante reunião secreta com os senadores Roberto Requião (PMDB-PR) e José Serra (PSDB-SP), abriram novos caminhos de investigação na CPI dos Títulos Públicos. Esta semana, integrantes e assessores da CPI vão se dedicar a levantar os pagamentos para empreiteiras, feitos pelas prefeituras do Estado de São Paulo que emitiram títulos com a justificativa de cobrir precatórios.
Isso porque o dono do banco Vetor afirmou que o esquema da prefeitura de São Paulo, que envolveria até o ex-prefeito Paulo Maluf, teria ‘‘lucrado duas vezes’’ com as operações dos precatórios. O primeiro ‘‘lucro’’, segundo Nahoum, seria extraído das comissões pagas na colocação dos títulos e, depois, por meio da negociação com empreiteiras, que tinham dívidas a receber de outras prefeituras. Graças à ajuda de Wagner Ramos, que prestou assessoria gratuita para, por exemplo, Osasco e Guarulhos emitirem títulos, construtoras teriam conseguido receber seus créditos nestes municípios.
Fábio Nahoum confirmou que o dinheiro arrecadado com os títulos, legalmente destinado ao pagamento de precatórios, era desviado quase sempre para pagar empreiteiras. Integrante da CPI, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) já determinou a seus assessores que sigam esta orientação: serão levantadas todas as faturas a empreiteiras pagas pelas prefeituras de Osasco e Guarulhos. A suspeita de Suplicy e de outros senadores da CPI é que, além de pagar propinas aos funcionários envolvidos nas operações, esse esquema financiou a organização de caixas eleitorais. Segundo informações que estão sendo conferidas pela CPI, o próprio Maluf teria ligado para prefeitos paulistas sugerindo a emissão de títulos.
O relator da CPI, senador Roberto Requião, também já trabalha com a hipótese de que Wagner Ramos não cobrava dos municípios, mas era remunerado por empresas interessadas em ver os cofres municipais abastecidos, para que pudessem receber suas faturas. ‘‘Seguramente ele não trabalhou de graça: deveria estar sendo pago pelas empreiteiras’’, afirmou Requião na semana passada.
A constatação de que o dinheiro dos precatórios pagou empresas privadas já foi feita no caso de Alagoas, onde Wagner Ramos organizou a colocação de letras financeiras do tesouro estadual no mercado. O próprio governador de Alagoas, Divaldo Surugay (PMDB), reconheceu que pagou obras com o dinheiro. Reportagem publicada pelo Estado mostrou que seis grandes empresas - Construtora e Pavimentadora Sérvia, EIT, Queiroz Galvão, OAS, Serveng e Coesa - absorveram R$ 64,759 milhões de um total de R$ 301 milhões obtidos com a emissão de títulos.
A CPI também vai tentar checar esta semana as informações que Fábio Nahoum disse ter recebido do ex-coordenador da dívida pública de São Paulo Wagner Ramos. Segundo Nahoum, Ramos lhe disse que despachava diretamente com Paulo Maluf, quando o assunto era precatórios. E que tinha tanta intimidade com o ex-prefeito que Maluf colocava jatinhos à sua disposição e até pagou seu transplante de rins - informações negadas pela assessoria do ex-prefeito.
Na quarta-feira, a CPI terá uma importante reunião: será votada o pedido de quebra de sigilo bancário, telefônico fiscal do chefe do departamento da Dívida Pública do Banco Central, Jairo da Cruz Ferreira, dos ex-secretários e atuais secretários de Fazenda e das equipes da Fazenda nos Estados e municípios que emitiram títulos em 1995 e 1996.

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