Depois de usar as reservas cambiais e elevar os juros, duas medidas antipáticas na área econômica, o presidente Fernando Henrique Cardoso mandou ontem o Congresso fazer a sua parte: sinalizar para os investidores que a reforma do Estado continua. Pediu, por isso, que sejam votadas as reforma administrativa e previdenciária.
Mas a tentativa de FHC reunir no Planalto os líderes da Câmara e Senado, para mostrar união entre Executivo e Legislativo, acabou irritando os próprios aliados do governo que saíram sem conhecer uma única medida concreta de combate ao déficit público. De volta ao Congresso, eles disseram ter sido chamados para uma ‘‘montagem de fotografia’’ no Planalto para transmitir interna e externamente essa imagem de união.
Irritou os líderes o fato de FHC ter convidado o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), e o líder do governo na Câmara, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), no dia anterior, para discutir as medidas que o governo vai tomar. O presidente aumentou o desconforto dos líderes ao cometer o que alguns consideraram uma ‘‘gafe’’ e outros, um ‘‘recado’’ sobre a força da família Magalhães.
Ao encerrar a reunião, FHC contou que o deputado Luís Eduardo Magalhães havia participado da reunião do dia anterior com ele e a equipe econômica, para detalhar as medidas que seriam tomadas, e chamou-o de ‘‘líder do governo no Congresso’’ (ele é líder na Câmara). O mal-estar foi geral e contagiou, entre outros, o líder do governo no Senado, Elcio Alvares (PFL-ES), do governo no Congresso, José Roberto Arruda (PSDB-DF), e dos maiores partidos aliados - do PSDB, Sérgio Machado (CE), e do PMDB, Jader Barbalho (PA).
O líder do PFL, Hugo Napoleão (PI), nem tentou esconder as divergências com o Palácio do Planalto. Ele não foi à reunião e não enviou representante. Sua cadeira ficou vazia. À tarde, fez questão de participar da sessão do Senado, para mostrar que estava em Brasília. Na reunião, ACM e Temer propuseram que os parlamentares trabalhem sábados e domingos, a partir do dia 20 de novembro, dispensando a necessidade de convocação extraordinária no recesso. ‘‘É o esforço concentrado’’, disse Temer.
Hoje deputados e senadores não trabalham ou reduzem o expediente ao mínimo nas segundas, terças e sextas. A maioria das votações só acontece às quartas e quintas. A previsão é que a Câmara encerre a votação da reforma administrativa no próximo dia 12 e aprove em primeiro turno, até o dia 15 de dezembro, a reforma da Previdência. Também entraria no ‘‘esforço concentrado’’ a aprovação do Orçamento pelo Congresso, do FEF (Fundo de Estabilização Fiscal) e do SFI (Sistema Financeiro Imobiliário) pelo Senado.
Para os líderes da Câmara e do Senado, não será necessária a convocação extraordinária do Congresso. Sergio Amaral afirmou que não houve decisão sobre o assunto. Temer discorda da opinião dos líderes. ‘‘É difícil não ter convocação por causa da tramitação das medidas provisórias. Aproveitaríamos para votar o segundo turno da Previdência na Câmara e a reforma administrativa no Senado’’, afirmou Temer. ‘‘O que o governo pôde fazer durante a turbulência, ele já fez. O importante é que Executivo e Legislativo dêem um sinal positivo de que vai se tomar medidas para fortalecer a economia’’, disse Sergio Amaral, porta-voz da Presidência.
‘‘Quanto mais sinais positivos nós conseguirmos dar, mais depressa a taxa de juros poderá cair’’, completou.
Participaram também do encontro os ministros Clóvis Carvalho (Casa Civil), Luiz Carlos Santos (Assuntos Políticos), o secretário-geral da Presidência, Eduardo Jorge, os senadores José Roberto Arruda (PSDB-DF), Elcio Alvares (PFL-ES), Sérgio Machado (PSDB-CE), Jáder Barbalho (PMDB-PA), Epitácio Cafeteira (PPB-MA), Odacir Soares (PFL-RO), Esperidião Amin (PPB-SC) e os deputados Luís Eduardo (PFL-BA), Aécio Neves (PSDB-MG), Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), Odelmo Leão (PPB-MG), Paulo Heslander (PTB-MG).

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