Sem governabilidade e contabilizando a derrota na Câmara dos Deputados, a presidente Dilma Rousseff (PT) inicia a semana em contagem regressiva para o seu afastamento do cargo por até seis meses, o que deve ocorrer com a possível instauração do processo de impeachment no Senado.
Segundo analistas ouvidos pela FOLHA, dificilmente o governo conseguirá encorpar o diálogo com os senadores, ainda influenciados pelo placar de ontem. A previsão é que a votação seja até o dia 11 de maio e, enquanto isso, o País seguirá vivendo um novo momento de paralisia administrativa, com petistas tentando rever as estratégias e o vice-presidente Michel Temer (PMDB) em constante movimento de preparação para o seu "governo de coalizão".
De acordo com o professor de ética e filosofia política da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Elve Cenci, o governo subestimou o poder de articulação do PMDB, depois de deixar o principal aliado insatisfeito em diversos momentos, como no bate-chapa com Eduardo Cunha (PMDB-RJ) pela presidência da Câmara. "Ao perder para Cunha, o partido se desestruturou."
Apesar da provável chegada de Temer à Presidência da República, Cenci alerta que a reconhecida capacidade de diálogo do peemedebista não será suficiente para mantê-lo tranquilo no comando do País. "Quando começa um novo governo, a partir de eleições legítimas, os eleitores e até a oposição concedem um tempo de cerca de 100 dias de tolerância. Mas no caso do impeachment, que é uma ruptura, não há esse tempo", prevê Cenci. "No caso de Temer, espera-se uma agenda de medidas que atendam o empresariado e não os trabalhadores e isso pode gerar novas mobilizações."
O sociólogo da Faculdade Mackenzie, de São Paulo, Rodrigo Augusto Prando concorda que o cenário é muito difícil para Dilma. "Não acredito que terá força política para barrar o processo no Senado. Ela deve ser afastada, continuar no Palácio do Planalto, recebendo metade do salário (cerca de R$ 15 mil), mas a debandada vai ser muito forte, porque os políticos, mesmo da base, vão pensar nos próprios mandatos e não querem afundar junto com a presidente. Daqui para a frente, ela deve ficar sozinha."

Ontem, lideranças petistas falavam em convocar novas eleições diretas, pois, segundo apostam, nomes como o do ex-presidente Lula ganhariam força em uma campanha fora de época. Segundo Prando, a estratégia do partido não deve prosperar. "Onde houver espaço de resistência para o PT, ele vai ocupar. Ele deve tentar uma PEC (proposta de emenda constitucional) para chamar eleições diretas, mas isso ainda teria que passar no Congresso, sendo que o governo não tem apoio para emplacar uma discussão como essa."
Prando vê o momento político nacional como o pior da democracia, independentemente do resultado do processo de impeachment. "Temos a presidente da República nessa situação; o vice-presidente também amarrado a ela por conta da possibilidade da cassação da chapa na Justiça Eleitoral; o presidente da Câmara denunciado e investigado; presidente do Senado (Renan Calheiros, PMDB) enroscado na Operação Lava Jato; e a oposição apagada."

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