Requião atirou em mim mas acertou no agricultor
Folha - Por ocasião das conquistas das montadoras Chrysler e Audi, o senhor foi alvo de críticas do secretário Emerson Kapaz, de São Paulo, e do governador Marcello Alencar, do Rio de Janeiro. Eles acusaram o Paraná de ter oferecido condições imbatíveis às fábricas. O que acha disso?
Jaime Lerner - São declarações infantis, eu me recuso a analisar, porque é de uma infatilidade... Veja o secretário Kapaz, ele sabe que eu sei que a proposta que eles fizeram para a Chrysler é semelhante à nossa. Houve razões estratégicas pelas quais a Chrysler se decidiu pelo Paraná e a empresa deixou isso claro. A mesma coisa em relação ao Rio de Janeiro. Eu adoro o Rio de Janeiro, eu trabalhei lá, tenho um amor muito grande pelo Rio. Queria que eles procurassem entender que eu estou defendendo o interesse do meu Estado. Não tenho a menor intenção de prejudicar o Rio. Quem tem que defender os interesses do Rio é o governador do Rio. No meu entender, e eu conheço muito bem o Rio, há tantas e tantas oportunidades alternativas de crescimento econômico que me surpreende que a postura do governador seja agora de reclamação, de choro. Se reclamam eu quero dizer uma coisa, eu faço absoluta questão que sejam abertos os protocolos de todas as indústrias que se instalaram em Minas, no Rio, nos outros Estados. Querer que o Paraná abra o seu, como quer um senador do Estado, numa hora em que estamos negociando com outras empresas, não tem sentido.
Folha - O senhor está falando do senador Requião?
Lerner - O Requião está sendo de uma pequenez em seu ódio, em sua inveja... Ele deu um tiro no governador e está acertando no pequeno agricultor. Isso não é surpresa para mim. Estou muito decepcionado com meu adversário. Esperava dele uma postura mais inteligente. Esta é a tendência maniqueísta do processo político, que quer transformar um ato positivo em um ato negativo. Isso é previsível no senador Requião. A jogada dele é transformar situações positivas em negativas, já que ele não conseguiu fazer as coisas positivas em seu mandato, que foi medíocre. Agora que a transformação está acontecendo, é como se fosse um arrependimento tardio, uma inveja, do porquê as coisas não terem acontecido no tempo dele.
Folha - Mas podiam ter acontecido naquele momento?
Lerner - Se houvesse visão estratégica, se houvesse menos ódio, sim. Mas a raiva ofusca a visão das pessoas.
Folha - O prefeito Rafael Greca disse que não precisa de um cargo no governo para continuar seu vôo político. Ele quer a Secretaria de Desenvolvimento Urbano, segundo informa o noticiário político. Como vai ser?
Lerner - O prefeito Rafael Greca talvez não precise, mas eu preciso dele no governo. Preciso e não abro mão da participação do prefeito, a quem tenho uma profunda admiração. Ele fez uma administração excelente e preciso dele em minha equipe, mas é evidente que o governador é quem sabe onde precisa mais. Tenho certeza que vamos ter o brilhantismo do Rafael em nossa equipe.
(N.da.R: O governador confirmou na sexta-feira que Greca será seu secretário de Planejamento.)
Folha - Haverá mudanças na equipe de governo?
Lerner - Não haverá grande mudanças, mas adequações importantes e necessárias. Eu quero ter a participação em órgãos importantes de prefeitos do interior. Já tenho uma idéia de aproveitar pelo menos cinco prefeitos como o Antonio Poloni, de Barracão, César Franco, de Guarapuava. Isso vai me dar uma presença maior do interior na minha equipe. Existem cargos com importância estratégica tão grande quanto uma Secretaria.
Folha - Em razão da campanha eleitoral, emergiu a disputa entre o interior e a capital. Houve críticas em relação à sua ausência nos municípios.
Lerner - Muitos reclamavam porque eu não percorri o Estado com a frequência que eu mesmo gostaria, mas foi fundamental minha presença no fechamento dos protocolos e acordos com as empresas. Foram negociações de cinco, seis meses. As viagens foram fundamentais para conseguir financiamentos externos. O momento do plantio exigiu muita atenção, mas agora eu vou poder ter uma presença maior em todo o Estado. Pretendo viajar mais, com toda a certeza, e vamos estar levando as obras que assumi diante do povo do Paraná.
Folha - Na área de atração de investimentos, o senhor poderia revelar quais foram os incentivos dados às montadoras?
Lerner - A Lei Aníbal Khury e outra lei que existe há mais de 30 anos, que é o Fundo de Desenvolvimento Econômico. São estes os incentivos que usamos. O Paraná usa estes incentivos há muitos anos e tem credibilidade por isso. As indústrias da CIC (Cidade Industrial de Curitiba) mostram como isso funcionou bem. Vejam o que aconteceu em Minas Gerais, a história de Minas depois da Fiat é outra. Foram concedidos incentivos? Claro. Se não fossem dados, a Fiat não se instalaria.
Folha - Alguns ambientalistas criticam a instalação de montadoras na Grande Curitiba, afirmando que isso pode prejudicar os mananciais da região. O que o senhor acha disso?
Lerner - Nós visitamos a fábrica da Renault em Córdoba e vimos que a montadora tem menos problemas ambientais que um restaurante em Curitiba. A visita mostrou que, embora a construção seja antiga, é uma indústria que tem tecnologia de ponta, com vários segmentos automatizados e gera 3,7 mil empregos. Importante também é o número de empregos indiretos criados. Mais ainda: a inserção do ponto de vista ambiental.
Folha - E os novos investimentos?
Lerner - Agora será a hora da grande colheita. Além dos projetos regionais, como da Costa Oeste, que está se consolidando, temos ainda o eixo regional de negócios de Londrina, que só não saiu antes porque necessitávamos de autorização do governo federal para utilização dos armazéns de café e outros projetos específicos para cada região.





