Representatividade zero
São muitas as causas apontadas para a nossa baixa representatividade política reafirmada agora na montagem do ministério e escalões inferiores do governo Lula. Ausência de pegada, de ''punch'', de tesão, é uma delas, o que sobrava em gestores como Ney Braga e Jaime Canet e inexiste, como carência fatal, em Lerner. Outra é a ausência de identidade, referencial que sobra nos gaúchos. Há ainda a visão autárquica, provinciana, voltada para o próprio umbigo sem abertura para o resto do País. Há também a escassez de quadros, reafirmada não apenas na montagem do governo atual como na circunstância de Alvaro Dias e Roberto Requião, num revival do café requentado, ambos vindos de derrotas massacrantes para Lerner, terem disputado o segundo turno e com uma soma de votos no primeiro inferior a 50%, o que indica rejeição pela maioria.
Na área política não se pode negar que Requião fez boa figura nas disputas do PMDB nacional e em alguns lances, em especial, no da relatoria da CPI dos Títulos Podres. De um modo geral, porém, em que pese a expressão até mundial de Lerner, ratificada na eleição da União Internacional de Arquitetos e ainda no fato de ele reunir como nenhum outro governante anterior condições para disputar a presidência da República, vimos a bisonhice com que tratou o tema.
Requião já tentou, sem as menores condições, duas vezes a presidência, a primeira quando enfrentou Quércia nas prévias nacionais do partido e a segunda, também frustrada, mais recente. Pois essa ausência de paranaenses como atores do teatro político é fator decisivo para explicar o vexame. Outra é a dependência revelada quando algum dos nossos ganha uma posição com um tipo de humildade quase abjeta com a maioria se postando submissa e comendo pela mão de integrantes de estamentos ministeriais. Indo na contramão daquele dístico de São Paulo ''ducco, non duccor'', conduzo, não sou conduzido. Greca, o derradeiro, bem no seu estilo barroco tendendo ao rococó, foi festivo e solto, mas que no fim somou um desastre entre bingos e a Nau Capitânea. É um tema sobre o qual vale a pena refletir e exercer a autocrítica.
BIZARRICE O Brasil sob o signo da renovação: Parreira e Zagalo no escrete e aqui o repeteco, entediante, de sempre.
AXIOMA Requião acumulando a Segurança tende a sugerir que o governador tem o dom da onipresença, estar em vários lugares ao mesmo tempo. A lembrança de que é ele próprio o xerife não amedronta a ''banda podre'', cuja exata dimensão, como a da fome no plano nacional, não se conhece.
GLOSA Numa enquete na CBN-Curitiba sobre a ausência de representatividade do Paraná o ex-secretário de segurança no primeiro governo Requião e delegado de Polícia Federal, José Moacir Favetti, revelou que esteve para assumir o posto máximo da sua corporação em Brasília e ficou como sub devido a vetos internos.
EPIGRAMA Aí foi montada a comitiva com 29 ministros do Fome Zero e verificou-se que pelo menos eles não deixariam de comer. Metáfora não alimenta a não ser, e como sempre, a própria imaginação.
FOLCLORE Quando Requião nomeou o irmão psicanalista Eduardo para o Porto de Paranaguá e Antonina houve a inevitável crítica de que aquilo era o mais puro nepotismo. Muita gente lembrou da resposta de Nho Guata (Guataçara Borba Carneiro), governador, que designara o filho, Paulo, para o Tribunal de Contas: ''você queria o quê que eu aproveitasse o seu filho?'' Num detalhe Eduardo não corre riscos em Paranaguá, pois já tem apelido, o de Vovó Naná.
CROMO Um dos meus netos, quando criança, de olho fixo no oceano, à noite, se espanta com os raios da lua que superam uma nuvem escura e se sai com uma digna de Rabindranat Tagore e Helena Kolody: ''a lua está pintando a praia.''
AFORÍSTICO Pimentel promete dar energia de graça aos pobres e diminuir o aumento prometido a todos os consumidores. Como lembrava o mestre Valverde um ''tudo para todos acaba em nada para nenhum.'' Zera-se a fome e a conta.





