Brasília - O governo brasileiro desistiu de cancelar o visto do jornalista norte-americano Larry Rohter, correspondente do jornal ''The New York Times'' no Rio, depois de receber ontem um pedido de reconsideração do repórter, no qual ele afirma que não pretendia ofender o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que pode ter havido equívoco na tradução do texto do inglês para o português.
No fim da semana passada, Rohter escreveu que o hábito de beber de Lula atrapalhava a administração do País e que isto era uma preocupação nacional. Os advogados do jornalista alegaram no pedido, entregue ontem no Ministério da Justiça, que Rohter não havia intenção de ofender, ''embora as repercussões e polêmicas posteriores à reportagem possam ter lhe causado constrangimentos, os quais lamenta''.
O visto de Rohter foi cancelado na terça-feira, ficando o jornalista obrigado a sair do País num prazo de oito dias a partir de então. Quinta-feira, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu um salvo-conduto para que ele permanecesse no Brasil, antecipando a decisão do governo na noite de ontem. A expulsão de Rohter causou repercussão em todo o mundo. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que estava na Suíça na terça-feira e não havia sido avisado da decisão, retornou ontem ao Brasil, tendo forte atuação como bombeiro na negociação do Palácio do Planalto com o repórter.
Na carta enviada ao Ministério da Justiça, assinada pelos advogados Celso Cintra Mori, Marta Mitico Valente e João Luís Aguiar de Medeiros, eles traçam um perfil profissional de Rohter, até mesmo ressaltando que ele havia entrevistado Lula, em ocasiões diferentes.
''A respeito do mencionado artigo em questão, o requerente (Rohter) declara jamais ter tido a intenção de ofender a honra do presidente da República, a quem já pôde até mesmo entrevistar em algumas ocasiões, e reafirma seu grande afeto pelo Brasil e seu profundo respeito às instituições democráticas brasileiras, incluindo a Presidência da República'', diz o pedido de reconsideração.
Segundo o documento, Rohter, na reportagem sobre Lula, limitou-se a veicular comentários, não contendo nenhum juízo de valor. Os advogados também afirmaram que a tradução da reportagem foi deturpada: ''O requerente (Rohter) manifesta sua preocupação, por entender que a versão de seu texto para o português não é fidedigna, o que pode ter causado a ampliação do mal-entendido.'' O pedido de reconsideração feito por Rohter era a saída que o governo esperava para acabar com a crise causada pelo cancelamento do visto do jornalista.
A negociação entre Rohter e o governo Lula começou na quarta-feira, quando os advogados do jornalista procuraram o Ministério da Justiça com a intenção de pedir a reconsideração da medida que cancelou o visto de permanência. As conversas se deram entre personagens de Nova York, os responsáveis do ''New York Times'', de Berna, onde estava Bastos, e de Brasília. O texto final do pedido de Rohter, negociado entre as partes, só saiu ontem, após o governo brasileiro ter recusado várias versões.

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