Brasília - A repercussão negativa do reajuste de 90,7% no salário dos parlamentares abriu uma divisão no alto comando do Congresso. O presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B-SP), insistiu ontem na decisão de aumentar os salários dos parlamentares para R$ 24,5 mil e apresentou um programa de cortes de despesas com o objetivo de compensar o reajuste. O Senado, porém, ensaiou um recuo e o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), admitiu, em conversas reservadas com parlamentares, transferir a decisão do valor do reajuste para votação em plenário.
''Estou aplicando e defendendo a posição das Mesas Diretoras e dos líderes'', afirmou Rebelo, ao informar que não tem nenhuma intenção de recuar do reajuste. Candidato à reeleição na presidência da Câmara, com essa atitude, Rebelo assume o desgaste político pelo reajuste de quase 100% nos salários dos parlamentares. Esse aumento é uma reivindicação, principalmente, dos deputados do chamado ''baixo clero''. Por outro lado, o aumento salarial não faz parte das preocupações dos senadores. Daí, a posição de Calheiros de lavar as mãos e deixar todo o ônus político para a Câmara.
''Eu, como presidente do Senado, entendo que o meu papel é exprimir a vontade das duas Casas'', argumentou Calheiros. Enquanto Rebelo apresentou uma proposta de cortar R$ 157,3 milhões nos gastos da Câmara, Calheiros não se preocupou em fazer contenção de despesas para compensar o aumento com a folha de pagamento dos 81 senadores.
Desde quinta-feira, quando foi decidido o reajuste, Rebelo tem conversado com líderes partidários e, segundo ele, não há disposição para recuo na Câmara. ''A idéia é que há um amplo apoio da decisão'', afirmou. A voz dissonante foi manifestada pelo líder do PT na Câmara, Henrique Fontana (RS). Ele defendeu uma nova reunião dos líderes partidários da Câmara e do Senado, com as mesas das duas Casas, para rever o percentual de aumento para os parlamentares. ''A repercussão junto à opinião foi muito ruim. A opinião pública não concorda com o reajuste e temos de sentar para reavaliá-lo'', argumentou Fontana.
Além do líder do PT, apenas o PSOL posicionou-se contrário ao aumento. Os dois partidos são favoráveis a um reajuste que corresponda à reposição da inflação nos últimos quatro anos. O salário dos parlamentares ficaria em torno de R$ 16,5 mil.
Na tentativa de diminuir o desgaste político, o presidente da Câmara apresentará até quarta-feira um projeto de decreto legislativo que acaba com o pagamento do 14º e 15º salários aos parlamentares. A proposta de Rebelo será a de acabar com essas ajudas de custo e restringi-las a dois casos: o do deputado novo, no primeiro ano em que assumir o mandato, para custear as despesas de transferência para Brasília, e o do deputado que não foi reeleito, para, no fim do mandato, pagar as despesas de volta ao Estado.
Outra medida política é a votação ainda esta semana do projeto que extingue 1.143 cargos de natureza especial, cujos ocupantes sem concurso foram demitidos por Rebelo. Caso o projeto não seja aprovado, no futuro, os cargos poderão, novamente, ser preenchidos por indicação política.

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