Ele foi o primeiro presidente civil eleito pelo voto direto desde 1960, e o primeiro a passar por um processo de impeachment e ter cassados, por oito anos, os direitos políticos - o que ele tentou contornar com a renúncia ao cargo há exatos 15 anos. Ainda hoje, rende uma série de controvérsias o processo envolvendo o ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello (PTB-RJ): estudiosos ouvidos pela FOLHA ora vêem no episódio fator de fortalecimento da democracia brasileira contemporânea, ora consideram que isso de nada teria ajudado a fortalecer as instituições democráticas.
A cassação dos direitos políticos terminou em 2000. Desde então, Collor galgou o retorno à vida pública com uma malfadada tentativa de governar Alagoas, e na bem-sucedida campanha pelo Senado na eleição do ano passado. Em 1992, porém, aquele que se autodenominava ''o caçador de marajás'', na disputa eleitoral de 1989, viu a Câmara, em votação aberta, votar a abertura de impeachment por 441 votos a favor, quando seriam necessários 336.
Para o cientista político Leonardo Barreto, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), o episódio envolvendo Collor fortaleceu a democracia à medida que, avalia, trouxe o know-how da investigação feita por congressistas. ''Isso tem toda uma relação com os casos recentes de corrupção - como o mensalão, por exemplo. A investigação que o Congresso inaugurou lá é, hoje, uma das principais funções que exercita, aliado ao acompanhamento rigoroso e também investigativo da mídia'', disse.
Barreto acredita que o fato de Collor retornar à política não o livrou por completo do ostracismo enfrentado nos últimos anos. ''Ele voltou 14 anos depois da renúncia, mas, mesmo assim, não tem tanta influência no Congresso; não readquiriu aquele prestígio e poder que o marcaram no passado'', analisou o cientista político. ''Provavelmente nunca mais isso será recuperado: esses processos, além da consequência política, têm as consequências morais - a pessoa perde status. Nesse caso, Collor nunca mais vai deter o lugar que teve na cena política: vai continuar pagando pelo passado.''
Já o cientista político Dennison de Oliveira, do departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a renúncia pouco influenciou o sistema democrático atual. ''Creio que o padrão estabelecido naquela época se mantém, mesmo porque o processo contra ele só ocorreu porque afrontou setores que o apoiaram, ao abrir a economia (ao capital estrangeiro) dentro de um projeto neoliberal'', avaliou. Segundo Oliveira, escândalos recentes como mensalão e caixa dois de campanha seriam os sinalizadores dessa suposta mesmice.
''Não vejo nenhum rescaldo positivo. Imaginava-se que, daquelas denúncias todas, seria possível uma contribuição ao fortalecimento das instituições democráticas. Não vingou o aperfeiçoamento da prestação de contas de campanha - é até um legado negativo, pelo caixa dois -, e o mensalão é a prova cabal de que não deu certo a lei que impossibilitaria saques bancários de grandes somas sem identificação do destinatário'', argumentou. ''A situação piorou tanto que o Collor até virou 'referência ética': não se fala que o mensalão movimentou duas ou três vezes o valor que teria desviado pelo grupo dele?'', comparou.

mockup