Renda sobe, mas desafios persistem
No quarto aniversário do Plano Real, o aumento da renda dos trabalhadores em geral e uma distribuição mais equitativa de ganhos entre as diversas faixas de rendimento foram dois dos efeitos mais importantes que a estabilização da moeda trouxe para a população, na avaliação de alguns economistas. Mas as finanças públicas, as contas externas e a deterioração da balança comercial continuam sendo os maiores desafios.
Para o economista Marcelo Neri, da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com uma renda per capita de US$ 5 mil, o Brasil não é um país pobre, mas é um país onde existem muitos pobres. Segundo Neri, em julho de 1994, na virada do Real, a proporção de pessoas abaixo da linha da pobreza era de 35% da população brasileira. Nos últimos 12 meses (entre abril de 1997 a março de 1998), caiu para 25,9%. O estudo de Neri é feito com base na Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aplicada em seis regiões metropolitanas (São Paulo, Porto Alegre, Recife, Salvador, Belo Horizonte e Rio de Janeiro).
A medida de pobreza é a renda domiciliar per capita: soma-se a renda de toda a família e divide-se pelo número de pessoas. A linha de pobreza varia de acordo com a região, a média é R$ 45,00, mas em Porto Alegre é R$ 50,00 e em São Paulo de R$ 90,00. O estudo do economista foi citado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso na mensagem enviada em fevereiro deste ano ao Congresso, para mostrar os benefícios que o Real trouxe para os mais pobres. Os brasileiros, especialmente os mais pobres, estão comendo, vestindo e morando melhor graças à moeda estável.
Se melhorou a situação dos mais pobres, o Plano Real não ajudou a diminuir um perverso índice social - a concentração de renda. O Brasil ainda é o campeão da injustiça social, cuja melhor medida é a distribuição de renda, afirma Samir Cury, autor de tese de doutorado sobre o Modelo de Equilíbrio Geral para Simulação de Políticas de Distribuição de Renda e Crescimento no Brasil, apresentada em abril à Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas e desenvolvida na Universidade da Califórnia, em Berkeley.
Não há nada que autorize dizer que o Plano Real modificou substancialmente a evolução da distribuição de renda no País, afirma Samir Cury. Para a pobreza, o efeito é diferente, explica. Distribuição de renda é a diferença entre a renda dos mais ricos e a dos mais pobres; se os dois melhoram, você não altera a distribuição de renda, mas a pobreza diminui, porque é uma medida absoluta; e ela realmente diminuiu no Plano Real.
Ranking da pobrezaA pobreza no Brasil, embora tenha diminuído com o Real, ainda é relevante em parâmetros mundiais. Gráfico publicado no último relatório sobre Indicadores Sociais do Banco Mundial, de abril de 1998, mostra que 80% dos pobres no mundo estão concentrados em 12 países. O primeiro no ranking é a Índia, que contribui com 36% da pobreza mundial. Em segundo lugar vem a China, com 26% do total de pobreza do planeta. Juntos, os dois países somam 62% dos pobres. O terceiro lugar é do Brasil, com 4% da pobreza da terra, seguido da Nigéria (2%) e Indonésia (2%). Nestes cinco países, concentram-se 70% dos pobres do planeta.Foto de Arquivo FolhaSaídaQualificação de mão-de-obra é uma das armas de combate à pobrezaAgência Estado





