Renan dá Constituição de presente a Lula
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quarta-feira, 09 de março de 2016
Mariana Haubert<br>Folhapress 
Brasília - Em um gesto de irritação em relação à Operação Lava Jato, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), entregou publicamente ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma edição da Constituição Federal, ontem, como uma sinalização de que as investigações estão extrapolando regras. O gesto simbólico foi feito ao final de uma reunião de mais de três horas entre Lula, Renan e cerca de outros 30 senadores na residência oficial do Senado.
Questionado sobre o motivo de ter dado a Carta Magna ao ex-presidente, Renan afirmou que "as investigações precisam avançar, mas no devido processo legal", em uma referência velada às ações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal contra os envolvidos no esquema de corrupção da Petrobras. Renan e Lula são investigados pela operação. "Há uma Constituição do Estado democrático de direito que precisa ser respeitada. Ninguém pode ser contra investigação. A diferença da investigação é daqueles que tem o que dizer e os que não tem o que dizer. A [entrega da] Constituição foi para simbolizar esse momento importante, em que precisamos garantir a Constituição, a liberdade de expressão, a presunção de inocência e o devido processo legal", disse o peemedebista.
Questionado sobre se fazia uma referência à citação de seu nome pelo senador Delcídio do Amaral (PT-MS) em delação premiada, Renan afirmou não ter conhecimento sobre o caso. "Sinceramente não vi e não tenho preocupação. Nunca cometi impropriedades, tudo o que disseram até aqui foi por 'ouvi dizer'. Não há nenhuma prova e não haverá nenhuma prova. Estou à disposição para colaborar com qualquer investigação. Nenhum homem público é imune à investigação", disse. C
A delação premiada de Delcídio traz citações a vários políticos, incluindo colegas do Senado. Segundo a reportagem da Folha de S.Paulo, o senador petista fez referências a Renan, Edson Lobão (PMDB-MA), Romero Jucá (PMDB-RR), Valdir Raupp (PMDB-RO) e Aécio Neves (PSDB-MG), único da oposição a ser citado pelo senador. A reportagem, no entanto, não teve acesso ao contexto do suposto envolvimento desses políticos. A simples menção feita pelo senador petista não indica que os citados cometeram crimes ou que serão investigados.
Segundo relatos, o ex-presidente também reclamou da atuação do Ministério Público na Operação Lava Jato e se disse "perseguido" pelo órgão. Lula voltou a dizer que não precisava ter sido levado de forma coercitiva para depor na última sexta (4) e afirmou que se tivesse sido intimado, compareceria à Polícia Federal.
CAFÉ DA MANHÃ
Com a sua entrada na articulação para barrar o impeachment da presidente Dilma Rousseff, Lula procurou Renan na terça para marcar o encontro, que inicialmente se restringiria à cúpula do PMDB. No entanto, senadores de outros partidos como PT, PSB, PR e PDT acabaram sendo convidados por parlamentares. Dessa forma, a intenção de discutir estratégias objetivas se perdeu ao longo da reunião, de acordo com participantes. O presidente do Senado afirmou que Lula não deu explicações sobre as investigações que correm contra ele, mas senadores que estiveram presentes afirmaram que o ex-presidente passou boa parte do tempo tecendo explicações sobre o uso do sítio em Atibaia (SP) e o seu apartamento triplex no Guarujá, litoral de São Paulo. "Nós saímos de lá sabendo que uma reunião daquela dimensão não teria como objetivo final que não fosse apenas esclarecimentos do presidente. Ele se queixou realmente, fez uma explanação em relação a questão do sítio, do apartamento, que inclusive ele tinha ido até lá, mas quando viu que o apartamento tinha escadas, ele não tinha comprado o apartamento, não tinha pago, não tinha assinado nada", afirmou o líder do PMDB, Eunício Oliveira (CE).
JANTAR COM TUCANOS
Depois de oferecer um café da manhã a Lula, Renan Calheiros (PMDB-AL) iria jantar ontem à noite com os principais líderes da oposição na Casa. O jantar seria na casa do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Foram chamados mais quatro senadores tucanos: Aécio Neves (PSDB-MG), José Serra (PSDB-SP), Aloysio Nunes (PSDB-SP) e o líder Cassio Cunha Lima (PSDB-PB). Os senadores querem discutir possíveis cenários em caso de afastamento da presidente Dilma Rousseff. Também está na pauta a delação do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), que citou Renan, Aécio e Jucá em depoimento aos procuradores da Lava Jato. Desde o fim da semana passada, o governo e o PT temem que Renan se reaproxime do vice-presidente Michel Temer e da oposição. O medo do Planalto é que o presidente do Senado deixe de atuar como fiador da governabilidade e passe a apoiar o impeachment de Dilma. Na última sexta-feira, Renan recebeu Temer em Alagoas numa das viagens do vice em busca de votos para ser reconduzido à presidência do PMDB.


