Remessas ilegais usam endereços falsos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de julho de 2000
Lúcio Horta De Londrina 
De uma pequena sala instalada no quinto andar de um dos prédios comerciais mais tradicionais de Londrina, o Edifício Autolon, saíram mais de R$ 10,5 milhões para o exterior, entre 1992 e 1998, por meio de contas CC-5 (Carta-Circular nº 5). Este foi o endereço do remetente do dinheiro, só que a empresa que consta dos registros do Banco Central (BC) a Comercial Capitânea Importação e Exportação Ltda. nunca funcionou no local e provavelmente foi mais uma fantasma utilizada para lavar dinheiro de atividades ilegais, como tráfico de drogas ou contrabando. O Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal (PF) investigam o esquema há cerca de dois meses. Somente da região de Londrina saíram quase R$ 150 milhões pelo esquema.
As investigações resultaram em 22 inquéritos, que foram requisitados pelo procurador da República em Londrina, João Akira Omoto, e são consequência do trabalho do procurador Celso Três, quando este atuava em Cascavel (Região Oeste). No ano passado, Três descobriu o esquema de remessa ilegal por meio das CC-5, totalizando R$ 124 bilhões, e conseguiu a quebra de sigilo bancário de todas as contas dessa modalidade no País.
Na sala do Autolon, onde deveria estar instalada uma importadora, funciona há mais de três anos uma empresa de informática. Nunca ouvimos falar dessa Capitânea, atestou o irmão do proprietário, que não quis se identificar. Antes disso, o local abrigou um consultório dentário e o escritório de uma Igreja. Mas com esse nome não existiu. Estou aqui há 39 anos e não vi nada disso, afirmou o síndico Antônio Ezídio da Silva.
Omoto destacou que as investigações correm em segredo de Justiça e por isso só pode dar informações genéricas. Entre os 22 casos pode haver remessas legais, e por isso é importante preservar o nome das pessoas. Ele acredita, no entanto, que boa parte dos casos serviu para evasão de divisas ou lavagem de dinheiro. Mas isso apenas os inquéritos poderão determinar. E são investigações complexas, que demandam tempo, diligências, quebra de sigilo bancário, ponderou.
O delegado João Alberto Iegas, que preside os inquéritos na PF, informou ontem que as investigações ainda estão no início e que ninguém foi ouvido. Antes dos depoimentos, a PF aguarda resposta do BC para saber se já existem outros inquéritos sobre as mesmas empresas. Com essas informações, começaremos as investigações de forma efetiva. Mas a gente já sabe que muitas pessoas nem serão encontradas, que podem ser laranjas do esquema, apontou.
Além de ir ao Autolon, a Folha também esteve onde deveria funcionar a Royal Cobrança e Facturing Ltda., na Rua Martin Luther King (Lago Parque, bairro nobre) e encontrou uma residência desocupada. Há mais de três meses que a casa está abandonada. Trabalho aqui há cerca de três anos e não me lembro de ver uma empresa funcionando ali, disse um segurança vizinho. Pela Royal, teriam saído do País mais de R$ 14 milhões. Outra empresa, a Mustaine Importação e Exportação, que deveria funcionar na Rua Mossoró, mandou R$ 79,2 milhões. Mas no local funciona uma locadora.


