Remessas ilegais pagaram campanha do PT em 2002
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quinta-feira, 11 de agosto de 2005
Folhapress 
Brasília - Os depoimentos prestados à Polícia Federal pelo publicitário Duda Mendonça e por sua sócia Zilmar Silveira e documentos entregues por ele à CPI dos Correios revelaram que despesas das campanhas eleitorais do PT em 2002, incluindo as do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foram pagas mediante remessas ilegais de dinheiro para o paraíso fiscal das Ilhas Bahamas.
O publicitário informou ter criado a empresa offshore ''Dusseldorf Company Ltd.'', também com sede nas Bahamas, com o único objetivo de receber, em remessas efetuadas em 2003, a quitação das dívidas do PT. Cerca de R$ 10,5 milhões chegaram à conta de número 0010012877 da Dusseldorf no BankBoston. O valor corresponde a uma parte da dívida contraída em 2002. Segundo Duda, esse valor ainda hoje permanece ''à disposição de um trust vinculado'' ao BankBoston sediado em Miami, na Flórida (EUA). Offshore e trust são empresas de papel cujos verdadeiros donos têm sua identidade preservada pelo sigilo.
Duda disse à PF que abriu a offshore nas Bahamas sob orientação do ''banco Boston Internacional''. Ele não revelou se possui outros sócios na mesma empresa.
Os detalhes da operação ainda não estão totalmente claros. A hipótese principal é que o dinheiro, sacado em diferentes datas das contas das empresas do publicitário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza, sob orientação do ex-tesoureiro nacional do PT Delúbio Soares, tenha sido entregue a um doleiro de Belo Horizonte (MG). Os policiais civis de Minas, David Rodrigues Alves e Luiz Lara, aparecem como sacadores de mais de R$ 6 milhões.
O doleiro, que se encarregaria de enviar o dinheiro para o exterior de forma discreta e ilegal, sem associá-lo a Duda Mendonça e a Marcos Valério, seria Jader Kalid Antônio. Há registros de que esses policiais já trabalharam para o doleiro. Cópias de dois faxes entregues por Duda à CPI registram operações de remessas informadas por uma pessoa de prenome ''Jader'' à ''Geiza'' supostamente Geiza Dias, funcionária de Marcos Valério.
Num documento que, segundo Duda, foi produzido por uma empresa de Valério aparece a menção a terceiras pessoas no trabalho de remessas. ''Os valores que estão apontados como 'faltando' estão sendo verificados pelo Agenciador remetente'', diz o documento.
No caminho até as Bahamas, teriam sido usadas outras empresas de papel que detêm contas bancárias nos Estados Unidos. Uma delas foi a Trade Link Bank, offshore sediada nas Ilhas Cayman e associada ao Banco Rural durante as investigações da CPI do Banestado.
O dinheiro também teria partido de contas bancárias abertas num braço do Banco Rural em Portugal e o Israel Discount Bank de Nova York (EUA). A forma pela qual Duda Mendonça contabilizou o dinheiro que chegou às Bahamas é toda ilegal, segundo ele próprio admitiu à PF. ''Quanto ao pagamento efetuado no exterior, não foram emitidas notas fiscais'', afirmou Duda Mendonça, no depoimento à PF de Salvador (BA).
Os parlamentares de oposição na CPI dos Correios desde ontem trabalham para tentar ter acesso às movimentações financeiras da Dusseldorf. O caminho natural da investigação será convencer as autoridades de Bahamas a quebrar o sigilo bancário da empresa, para identificar a origem do dinheiro.
O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) pediu, durante o depoimento de Duda, que ele tomasse a iniciativa de autorizar a quebra do sigilo, mas o publicitário alegou que seria necessário obter consentimento de outros supostos sócios ou diretores na Dusseldorf cujos nomes não revelou.
Caixa dois - Duda Mendonça admitiu ter recebido do PT, por meio de Marcos Valério, dinheiro de caixa dois referente à campanha eleitoral de 2002, inclusive por meio de depósitos feitos em uma conta sua no exterior. Ele, no entanto, procurou negar que os depósitos tenham sido feitos para cobrir gastos da campanha do presidente. Disse que a campanha de Lula fazia parte de um ''pacote nacional'', mas foi quitada com dinheiro ''oficial''. Ele não apresentou provas da origem dos recursos.
Segundo Duda, ele recebeu R$ 15,5 milhões do PT em 2003 e não emitiu nota fiscal a pedido do partido. Desse total, 11,9 milhões vieram de Valério, afirmou o marqueteiro. Foram R$ 10,5 milhões para uma conta num paraíso fiscal e R$ 1,4 milhão em quatro parcelas em espécie.
O pagamento seria referente a dívidas das campanhas de 2002 e também a serviços prestados em 2003. ''Esse dinheiro era claramente de caixa dois, a gente não é bobo. Nós sabíamos, mas não tínhamos outra opção, queríamos receber'', disse ele.
No caso específico da campanha presidencial, no entanto, ele teria emitido notas fiscais, mas não as apresentou. ''É só cruzar as faturas que eu emiti com a contabilidade do PT para ver se a campanha de 2002 foi paga por dentro ou por fora'', afirmou. O publicitário disse ainda que, no caso da campanha de Lula, o pagamento foi ''por dentro'' porque a arrecadação da campanha presidencial foi elevada. O depoimento de Duda Mendonça não havia terminado até o fechamento desta edição.


