Brasília - O parecer do deputado Jairo Carneiro (PFL-BA), que sugere a cassação do mandato de Roberto Jefferson (PTB-RJ) por quebra de decoro parlamentar, argumenta não haver elementos que atestem a existência do ‘‘mensalão’’ nos moldes descritos pelo petebista. O parecer, no entanto, afirma ter existido um esquema de corrupção envolvendo o PT e deputados aliados ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
  As mais de 20 páginas que compõem o voto do relator seriam lidas ainda na noite de ontem no Conselho de Ética da Câmara. Para Carneiro, que foi pressionado a fazer um adendo a seu voto, não há dúvida de que há uma lista de delitos que configuram um esquema de corrupção com quebra do decoro parlamentar.
  ‘‘Rigorosamente, esse conceito [o ‘‘mensalão’’ descrito por Jefferson] pode não ter se configurado. Mas há uma clara prática de corrupção, do uso irregular de dinheiro, isso tudo fere o decoro parlamentar e configura delito. A corrupção está patente. Envolve o Executivo, o PT, partidos políticos e setores empresariais’’, disse o relator. ‘‘O fato de você não ter conseguido provar alguma coisa não quer dizer que ela não exista.’’
  Carneiro sofreu uma pressão grande do PFL e de outros setores da oposição devido à declaração do presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP), de que o relatório não tinha, até hoje, elementos para comprovar a existência do ‘‘mensalão’’ nos moldes descritos por Jefferson - pagamento mensal pelo PT de R$ 30 mil a deputados do PP e do PL em troca de apoio político.
  Essa avaliação gerou tensão devido ao temor de que o relatório do Conselho de Ética sirva como base de defesa para deputados envolvidos no suposto esquema.
Depois de uma bateria de telefonemas de pefelistas e de duas reuniões a portas fechadas com o deputado ACM Neto (PFL-BA), integrante da CPI dos Correios, Carneiro foi convencido a redigir o adendo ao seu voto.
  ‘‘Pode ter certeza de que vou fazer uma intervenção verbal forte’’, prometeu por telefone ao líder do PFL na Câmara, Rodrigo Maia (RJ). Ele diz não haver motivo de preocupação: ‘‘Ninguém vai se proteger debaixo de um guarda-chuva que não existe’’.
  Ricardo Izar divulgou nota ontem em que diz haver ‘‘fortes indícios’’ de pagamentos sistemáticos a deputados, mas com a ressalva de que não acredita que se possa provar que eles eram mensais. ‘‘Existem provas cabais, e não meros indícios, de que houve pagamentos e retiradas irregulares de dinheiro (...) sugerindo fortes indícios de que poderia efetivamente existir um esquema de pagamento sistemático a deputados da base aliada’’, diz a nota.
  Roberto Jefferson pode ser o primeiro congressista cassado na atual crise política. Carneiro apontaria em seu relatório, entre outras coisas, o fato de Jefferson ter admitido o recebimento de R$ 4 milhões do PT em 2004, a título de ajuda para a campanha, sem registro na Justiça Eleitoral, o que configuraria crime de caixa dois.
  A votação do parecer no conselho só deve ocorrer na quinta-feira, já que o deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP) iria pedir ‘‘vista’’ ao voto do relator, o que, pelo regimento, retardaria o processo em duas sessões plenárias.

mockup