São Paulo - O relator do processo contra o deputado José Dirceu (PT-SP) no Conselho de Ética, Júlio Delgado (PSB-MG), apresentou ontem seu voto em que pede pela cassação do parlamentar petista, acusado de envolvimento no esquema do ''mensalão'' em representação movida pela presidência nacional do PTB em junho. ''Sua cassação se impõe como meio de restaurar a dignidade e a credibilidade desta Casa'', afirmou Delgado. Dirceu reagiu irritado ao voto de Delgado (leia texto nesta página).
Delgado procurou contestar ponto por ponto a defesa de Dirceu durante a leitura de seu voto, em que pediu a cassação do deputado paulista. Delgado contestou a tese ''repetida à exaustão'' por Dirceu que o processo não se sustenta porque ele não exercia o mandato de deputado à época dos fatos contidos nas acusações. O relator apelou para o regimento da Casa para justificar que Dirceu permaneceu vinculado à legislatura apesar de investido do cargo de ministro (Casa Civil) no que chamou de ''integridade do vínculo entre o deputado e a Casa a que pertence''.
O relator também procurou contestar a tese da falta de provas argumentada pela defesa de Dirceu, principalmente apelando para testemunhos, notadamente, do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza e a mulher Renilda Santiago. Com base nos depoimentos do empresário, de sua mulher, e da presidente do banco Rural, Kátia Rabello e de outros concedidos às CPIs, o relator tentou construir a tese de que Dirceu manteve-se ligado à atividade partidária do PT e que, portanto, não justifica a idéia, também bastante repetida por Dirceu, de que sua agenda como ministro não permitia que continuasse envolvido com o PT.
O relator também usa como indício da influência de Dirceu sobre o PT o desenvolvimento e o resultado das últimas eleições internas do PT, em que a corrente Campo Majoritário continuou forte dentro das instâncias administrativas da legenda. Dirceu é vinculado a essa corrente.
Delgado chegou a utilizar até mesmo uma frase do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teria chamado Dirceu de ''capitão do time'', para afirmar que o deputado petista não poderia ter ficado ''alheio à rapinagem dos cofres públicos''. Também utilizou declarações do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que teria confirmado o relacionamento ''pessoal e institucional'' entre Dirceu e Delúbio Soares (ex-tesoureiro do PT).
Para Delgado, um parlamentar pode perder seu mandato de duas formas: por um ato administrativo ou por um ato jurídico, estando Dirceu no primeiro caso.
Delgado foi indicado como relator no dia 10 de agosto. Foram ouvidas como testemunhas de defesa o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, os deputados federais Aldo Rebelo (PC do B-SP), Eduardo Campos (PSB-PE) e Arlindo Chinaglia (PT-SP), além do jornalista Fernando Morais. Kátia Rabello, a presidente do banco Rural, foi a única de testemunha de acusação a depor.

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