Brasília - O senador Humberto Costa (PT-PE) pediu ontem a cassação do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) por quebra de decoro parlamentar. Relator do processo conta o ex-líder do DEM no Conselho de Ética do Senado, Costa disse que Demóstenes recebeu ''vantagens indevidas'' do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e praticou ''irregularidades graves'' em seu mandato, por isso deve ser cassado.
Em relatório de 79 páginas, Costa diz ter confirmado uma série de suspeitas sobre o senador. Ele afirma que Demóstenes agia como uma espécie de ''despachante de luxo'' do empresário do ramo de jogos ao defender seus interesses em órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Ministério da Educação e Receita Federal.
''A vida política do senador Demóstenes, desde 1999, gravita em torno dos interesses de Carlinhos Cachoeira no ramo de jogos de azar'', diz o relator.
Segundo Costa, o argumento do senador de que desconhecia ''ilícitos'' cometidos pelo empresário não se sustenta uma vez que Cachoeira teve o pedido de indiciamento aprovado pela CPI dos Bingos, que funcionou no Congresso em 2004. ''É incrível que alguém com tanto conhecimento na área de informação e contrainformação, simplesmente nada soubesse sobre uma pessoa que lhe era tão próxima, o Carlinhos Cachoeira'', afirma Costa.
'Fantasia'
No relatório, o senador rebate o depoimento de cinco horas prestado por Demóstenes ao conselho no mês passado. O relator questiona, em especial, a justificativa do senador de que ''jogou verde'' para Cachoeira ao avisá-lo na véspera sobre uma operação da Polícia Federal que desmontaria jogos de azar.
O relator diz que a versão de Demóstenes é ''fantasiosa'' e o senador teve o real interesse de agir como seu informante. Segundo Costa, a relação entre Demóstenes e Cachoeira inclui doações de ''caixa dois'' para campanhas do senador, assim como o repasse de recursos diretamente do empresário para o ex-líder do DEM.
Diferentemente do que diz Demóstenes, o relator afirma que o senador é o alvo de conversa entre Cachoeira e Gleyb Ferreira da Cruz, que seria um dos integrantes da susposta organização criminosa comandada pelo empresário, para receber R$ 20 mil. ''Não deixa qualquer dúvida que a pessoa referida no trato dos R$ 20 mil é o senador Demóstenes. O fato central é que houve uma transação entre Gleyb e Cachoeira que envolvia Demóstenes.''
Costa ainda fala dos presentes recebidos por Demóstenes de Cachoeira, entre eles um rádio Nextel com as contas pagas pelo empresário, que mostram a ligação direta dos dois - inclusive em negócios ilícitos. No relatório repleto de citações de filósofos, Costa diz que o comportamento de Demóstenes ''põe em xeque'' sua referência como parlamentar à sociedade. ''Não importa que seja uma dívida de R$ 1 ou de R$ 50. O que possui implicância ética é a falta de decoro de um parlamentar quando aceita que um terceiro assuma o pagamento de suas faturas telefônicas e outras despesas. Ainda mais quando esse terceiro é um delinquente.''
Se o relatório de Costa for aprovado pelo Conselho de Ética, segue para votação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado e pelo plenário da Casa - onde a votação é secreta. Demóstenes perderá o mandato em definitivo se a maioria dos 81 senadores votarem pela cassação no plenário. Até o fechamento da edição, a reunião do Conselho de Ética ainda ocorria no Senado.

Imagem ilustrativa da imagem Relator pede cassação de Demóstenes
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