O presidente Fernando Henrique Cardoso, nas declarações ao chegar a Madri, fez o trivial elogio ao bom momento das relações Brasil/Espanha, que ‘hoje já são melhores, e vão melhorar mais’’. Desta vez, no entanto, o discurso protocolar retrata a realidade ao menos parcial: do ponto de vista econômico, a Espanha tem se aproximado bastante do Brasil, como parte de seu avanço em toda a América Latina. Os capitais espanhóis formam a segunda maior fatia (4,4%) na compra dos US$ 47 bilhões de ativos privatizados desde 1991 a 1997. Perdem apenas para os capitais norte-americanos (17%).
Virá muito mais dinheiro espanhol em 1998, ‘‘a julgar pelo que dizem à embaixada os responsáveis pelas maiores empresas espanholas, como a Telefónica de Espa¤a, o Banco Bilbao Vizcaya, a Endesa (energia elétrica) e a Iberdola’’, diz comunicado emitido pela embaixada do Brasil. O governo brasileiro acha que a presença espanhola no Brasil é ‘‘crucial para a consolidação dos investimentos já realizados em países vizinhos, sobretudo Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile’’.
Efeito magnético O Itamaraty entende que ‘‘o efeito magnético produzido pelo processo integrador do Mercosul vincula crescentemente tais economias à brasileira’’. O comércio bilateral também aumentou (mais que dobrou de 95 para 97). No ano passado, foi de US$ 2,2 bilhões, com pequeno saldo (inferior a US$ 100 milhões) para a Espanha. E mudou de rosto: o comércio agora ‘‘obedece à lógica da multinacional’’, diz o embaixador Carlos García. Exemplo: autopeças passaram a ser componente importante das trocas, em ambos os sentidos, dado o fato de que os chamados veículos mundiais (como o Ka ou o Fiesta) são produzidos tanto na Espanha como no Brasil. Se faltam autopeças no Brasil, a montadora importa da Espanha. E vice-versa, quando a carência se dá na Espanha.
García diz que é até difícil, agora, falar em saldo ou déficit, dada a nova composição dos produtos comercializados entre os dois países. Exemplo: a Petrobrás está comprando na Espanha plataformas para exploração submarina de petróleo a mais de 900 metros de profundidade. Mas o design é da própria Petrobrás, algumas peças são britânicas e os serviços (como os controles informáticos) vêm da Alemanha. ‘‘Quem exporta o quê para onde?’’, pergunta o embaixador.
‘‘Grande ausente’’ No território político, no entanto, a aproximação entre os dois países é menos acentuada, a ponto de a Chancelaria espanhola considerar o Brasil o ‘grande ausente’’ da sua política externa. Há até uma divergência de enfoque: a Espanha, que inventou as cúpulas iberoamericanas, gostaria de institucionalizar esse foro, como parte de seu esforço de ampliar a presença na América Latina. O Brasil, ao contrário, vê tais cúpulas como um exercício menor, até porque elas não tratam de negócios. Visam apenas reforçar os laços culturais entre a Península Ibérica (Portugal e Espanha) e suas ex-colônias nas Américas.
De todo modo, a visita de FHC permitirá puxar a vertente negócios na área cultural, por meio de acordos nas áreas de edição de livros e pacotes conjuntos de divulgação e venda de filmes espanhóis e brasileiros.

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