BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem uma série de críticas e autocríticas. Disse que ministros ficaram ''expostos'' na discussão da reforma ministerial engavetada. Admitiu que ele e sobretudo o PT erraram na eleição do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE). E afirmou que o processo na Câmara resultou na ''desmoralização'' das lideranças tradicionais da Casa. Essas declarações foram dadas na nona reunião ministerial do governo Lula a primeira deste ano e a mais curta de todas (pouco mais de uma hora).
O presidente, que falou por quase uma hora, justificou a decisão de engavetar a reforma ministerial ampla como forma de preservar sua autoridade, pois sofrera ultimato de Severino para nomear um ministro do PP. ''Reforma agora só reforma agrária e reforma da Previdência. Ministros não vão ficar mais expostos. Vou chamar e trocar na hora'', disse Lula, de acordo com diversos relatos de ministros à Folha de S.Paulo. Ou seja, apesar ter dito que o assunto reforma ministerial está ''encerrado'', admitiu a possibilidade de trocas pontuais.
Lula teve preocupação em demonstrar autoridade, pois a reforma ministerial que não aconteceu estava em debate desde novembro: ''Tomei essa decisão porque quem tem mandato é o presidente da República, é minha responsabilidade e eu não vou abdicar dela nem partilhá-la''.
O presidente ainda procurou explicar por que resolveu abortar a ampla reforma ministerial e fez um gesto para não deixar mal o ministro José Dirceu (Casa Civil), que fez os contatos políticos, e o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), que também operou politicamente. ''Quero dizer a José Dirceu e Mercadante, que trabalharam nas articulações, que eles estão de parabéns, mas eu não tive condições de avisá-los. A decisão foi minha, única, quando cheguei para falar com o PMDB avisei e surpreendi todo mundo'', disse, sempre segundo ministros.
Ao afirmar que não discutirá mais mudanças de ministério, Lula atribuiu à imprensa responsabilidade na fritura de ministros. Falou que o governo não pode ''viver de boatos de jornal, senão vira nossa militância''. ''Eu vejo ministro sendo espoliado na mídia e tenho vontade de mandar uma carta e dizer que não vai sair. Mas não posso, porque pode sair por necessidade política'', disse Lula na reunião ministerial convocada para apresentar Paulo Bernardo, ministro do Planejamento, e Romero Jucá, da Previdência, além do novo líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP).
Com uma brincadeira, o presidente Lula rebateu reportagens da imprensa dando conta de paralisia no governo devido a arrastada discussão sobre reforma ministerial. Afirmou que, quando trabalhava ''na fábrica e diziam que iria ter facão (demissão), aí é que a peãozada trabalhava mais para mostrar serviço''. Arrancou risadas de ministros.
Lula elogiou o ministro Humberto Costa (Saúde), que chegou a ser avisado de que seria substituído por Ciro Gomes (Integração Nacional), dizendo que a intervenção nos hospitais do Rio mostrou que o governo pode fazer ''bom embate administrativo''. A intervenção foi resposta ao prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, presidenciável do PFL.
O presidente estimulou os ministros a ''empenhar os seus recursos'' (tecnicamente, compromisso de gasto) até o limite permitido pelo corte orçamentário. Afirmou que, se fizerem isso, podem ''cobrar mais um dinheiro'' do ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda), que atenderia ''dentro do possível''.
Lula foi o único a falar na reunião, quando pediu aos ministros para acelerar os trabalhos porque 2005 será o ''ano da colheita'' do que foi feito em 2003 e 2004. Nesse momento, citou como exemplos positivos recentes o trabalho de combate à seca no Rio Grande do Sul e a intervenção nos hospitais do Rio de Janeiro.
Ele relacionou quatro projetos prioritários: melhoria na gestão da Previdência, transposição das águas do rio São Francisco, conclusão da ferrovia transnordestina e biodiesel. Pediu a Dirceu que marcasse novas reuniões para que os ministros conhecessem os projetos uns dos outros a fim de ter argumentos para defender o governo. ''O presidente pediu que os ministros acelerem ao máximo os seus trabalhos'', disse André Singer, porta-voz da Presidência.
Dos 35 ministros ou secretários com status de ministro, faltaram Tarso Genro (Educação) e Celso Amorim (Relações Exteriores), ambos em viagem. O vice José Alencar, ministro da Defesa, recebia na hora o secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld.

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