São Paulo - Em meio à polêmica da reforma do Judiciário, o governo fez aprovar na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado um capítulo aparentemente sem relevância, mas que despertou ''indignação, revolta e perplexidade'' no Ministério Público Federal a mudança de denominação do cargo de procurador da República para promotor de Justiça federal. Os procuradores da República consideram-se alvos de retaliação do Palácio do Planalto, às turras com a instituição que investiga as atividades do empresário Waldomiro Diniz, ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil. ''É uma violência simbólica contra o Ministério Público Federal'', reage o procurador regional em São Paulo, Mário Luiz Bonsaglia. ''O procurador é identificado como um agente comprometido com a realização da ordem jurídica republicana e a afirmação da cidadania.''
''É um atentado contra a nossa identidade, que é secular'', reage a procuradora Luiza Cristina Frincheisen, há 12 anos na função que a notabilizou como caçadora de corruptos da administração federal. ''Somos procuradores da República desde que este país é uma República.''
Na prática prerrogativas e direitos , fica tudo como está para os procuradores, mas eles estão dispostos a manter a qualquer custo o título que ostentam desde a criação da carreira a 23 de outubro de 1890, quando o Governo Provisório editou o Decreto 848, criando a Justiça Federal e o MPF. Já decidiram que vão bater à porta de todos os senadores, antes da decisiva batalha do plenário.
Comandará pessoalmente a força-tarefa o procurador-geral da República, Claudio Fonteles, que não esconde seu repúdio à mudança e vai fazer chegar ao Planalto sua insatisfação. Antes da votação na CCJ, Fonteles peregrinou pelo Senado, endossando nota técnica da Associação Nacional dos Procuradores da República contra a mudança que causa mal-estar na classe.
Os procuradores da República, a quem a Constituição confere o papel de fiscais da lei e guardiães da democracia, sabem que a missão é árdua. Afinal, importantes líderes do governo querem a alteração da nomenclatura do cargo. Na CCJ, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) defendeu categoricamente a alteração, sob argumento de que é necessária a unificação da terminologia para facilitar a identificação nos Estados, o MP abriga em suas fileiras promotores de Justiça. ''O objetivo é nos atingir'', protesta Nicolao Dino de Castro e Costa Neto, líder dos procuradores. ''O que isso contribui para o aprimoramento da Justiça?''
A proposta não saiu do governo, mas foi por ele apoiada. Apresentou-a o senador Demóstenes Torres (PFL), ex-promotor de Justiça em Goiás, que pregou unificação das denominações dos cargos do Judiciário e do MP. Passou apenas a troca que afeta os procuradores. ''O governo aproveitou-se do momento'', acredita Nicolao Costa Neto, em alusão ao episódio Waldomiro Diniz.

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