Reflexos e reflexões de Momo
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segunda-feira, 04 de março de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Reflexos e reflexões de Momo
Nos momentos mais intensos da vida brasileira- e não há nenhum como a guerra- captava-se o grau de manipulação do carnaval para a mobilização patrioteira. Getúlio Vargas, que era um mito como Mussolini, Hitler e Stalin (já que não assentava bem compará-lo com Roossevelt), era alçado a níveis semelhantes desses ditadores, inclusive o da Espanha e Portugal, nas marchinhas carnavalescas. Uma dessas características o punha em analogia a Hitler, isso depois da adesão aos aliados, negociação em que o Brasil levou Volta Redonda em troca da concessão dos aeroportos, o daqui, de Afonso Pena, e o de Natal para a campanha bélica da África. "Quem é que usa um cabelinho na testa?// E um bigodinho que parece mosca// Só cumprimenta levantando o braço// Ê ê ê, palhaço!// Quem tem um Gê que representa a glória// E um Vê que ficará na história// E um sorriso que nos dá prazer// Ê ê ê vitória!´´´
Nas histórias em quadrinho, como em qualquer outra manifestação cultural, e isso se tornava mais visível no cinema, tínhamos esse engajamento ideológico-cívico como parte do esforço geral de mobilização. Como de resto tem havido uma tradição histórica no aproveitamento dos incidentes políticos como se deu com a Lava Jato e as façanhas do japonês da Federal, que tirava os indiciados ou meramente denunciados da cama, "Ai meu Deus// Me dei mal// Bateu à minha porta o japonês da Federal (bis) //Dormia o sono dos justos// Raiava o dia eram quase seis// Escutei um barulhão, abri a porta e o japonês então falou:// Vem pra cá, você ganhou uma viagem ao Paraná".//
Há um caricaturando a situação atual pondo culpas no PT e a corja vagabunda de esquerdistas, da família Passos de Curitiba: "O Bozo é o mito// fora fora comunistas// Melhor Jair procurando o que fazer// Vou acabar com a Lei Rouanet// Traz a Damares// Traz o Mourão// Que traz seu filho pra mamar no tetão// Prepara o suco de laranja pro Queiroz// Que traz um dinheirinho para todos nós"//.
E há os que retomam a trajetória gloriosa como se deu com Getúlio Vargas, que mesmo com mandato de senador se autoexilou no interior do Rio Grande do Sul e voltou em 1950 para de novo assumir a presidência: "Bota o retrato do velho outra vez// bota no mesmo lugar// o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar"//. A referência era ao retrato de Getúlio, o ditador, que havia praticamente nas casas e escritórios com a frase "O Brasil confia no Chefe da Nação", o velho culto à personalidade, fundindo a imagem do chefe à nacionalidade, algo meio parecido com a intenção recente do ministro da Educação com a proposta de filmagem de alunos cantando o hino nacional.
Também fiz um desses exercícios na fase aguda da guerra fria quando um advogado de Curitiba, irritado com as articulações da esquerda no governo João Goulart, se dispunha a vender seus bens para armar-se contra o que estava por vir. Era assim: "Hipoteco meu teco teco// a minha casa//, o meu quintal// vou armar minha família// pra evitar que comunista// me esculhambe o carnaval"//.
O fato é que confiar no chiste e no sarro não basta, mas expressam um estágio de bom humor nas contendas, o que é indispensável à prática democrática.
Pré maior que a festa
Ficou provado algo paradoxal: o couvert é mais importante que o jantar. Esse pré-carnaval de Curitiba, hoje consolidado depois de décadas, por seus lances de extrema criatividade nos desdobramentos de "Sacis e Garibaldos", derrubou um velho arquétipo da praça de que seria infensa à festa de Momo e curiosamente obriga, até por hierarquia, à melhora constante da festa principal. É verdade que boa parte da população se desloca para o litoral, onde há muita vibração com os trios elétricos da Caiobanda e da Guaratubanda, isso sem falar nas celebrações de outras praias e especialmente em Antonina e Paranaguá. Saques como o Zombie Walk de domingo (3) já colocam elementos do pré no segundo dia da festa em que ainda se destacam o carnaval eletrônico.
No passado o carnaval era dominantemente de salão, mas a questão dos custos com cobrança de direitos autorais e contratação de orquestras tornou o evento inviável, restando a iniciativa de uns poucos clubes na manutenção de festas infantis. A evasão às praias também tornou um drama a venda das mesas para os bailes. Aquilo que era um orgulho e uma afirmação para todos os clubes se transformou em impossibilidade. O grande número de sociedades se tornou inviável com os sócios remidos que com o tempo eram liberados das mensalidades. Basta lembrar que a mais antiga delas, o germânico Concórdia, a despeito de sua expressão e patrimônio, estava com apenas 500 sócios pagantes e a saída foi fundir-se ao Clube Curitibano.
Folclore
Cada cidade consagra alguns tipos de pessoas como operadores básicos do carnaval, como é o caso do advogado José Cadilhe de Oliveira, do Maé, do Afunfa, do Baio (Lauro Carvalho Chaves) e do meu irmão mais novo, o Mazzinha, que sozinho é um bloco. Cadilhe tocava também a escola da Sociedade Thalia "Embaixadores da Alegria". Em matéria de "merchandising" fez uma de traço inesquecível: fantasiados de pinguim e de garrafa, o nome do produto obviamente enrustido, botaram para quebrar na exaltação à cerveja, que é do segundo homem mais rico do Brasil.


