Referendo não livra Bolívia do impasse
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sábado, 09 de agosto de 2008
Flávia Marreiro, Enviada especial<br>Folhapress 
La Paz, Bolívia - Nem o governo de Evo Morales nem os governadores da oposição acreditam que o referendo de hoje, que põe seus cargos à disposição da população, será um xeque-mate na guerra de nervos que paralisa politicamente o país desde novembro do ano passado.
Quando disser ''sim'' ou ''não'' a governadores, presidente e vice - numa consulta cercada por incerteza jurídica -, a população participará de um tira-teima das eleições de dezembro de 2005, quando o esquerdista Morales foi eleito ao lado de três governadores aliados e seis de oposição. De lá para cá, foram feitos pouquíssimos gestos para uma agenda mínima comum, de resto difícil de alcançar sem concessões importantes.
O rico departamento de Santa Cruz e seus aliados da chamada ''meia lua'', que formam o celeiro e a reserva energética do país, defendem a autonomia quase total para lidar com os recursos num cenário de alta do gás e dos grãos.
O governo nacional, liderando o pauperizado altiplano, prega uma versão do nacional-desenvolvimentismo que promete um Estado mais presente, capaz de redistribuir renda. Uma de suas medidas foi cortar um repasse às regiões para pagar um benefício a idosos.
Junte-se ao caldeirão a ampliação dos direitos dos indígenas, também inscrita na nova Constituição aprovada pelos governistas e que ainda tem de ir a referendo para vigorar.
Relançamento
Na consulta de hoje, tanto pesquisas quanto analistas e políticos dos dois lados praticamente descartam que o presidente Morales saia do cargo. Do mesmo modo, sustentam que o principal bastião da oposição, Santa Cruz, seguirá comandado por Rubén Costas. O departamento pecuarista de Beni também deve manter o governador opositor.
Ainda assim, no governo nacional a expectativa é que a consulta moverá algumas peças do tabuleiro da crise, de modo a devolver a La Paz a iniciativa política. ''É a oportunidade para o governo se relançar'', crê Manuel Mercado, responsável pelo Observatório de Gestão Pública, ligado à Presidência. A unidade mede o humor da população sobre as medidas oficiais e tem feito pesquisas com consultoria do Ibope brasileiro.
A partir delas, Mercado calcula: sairão dos seus cargos os governadores oposicionistas de Cochambamba - que rejeita o referendo - e o de La Paz. ''Tendo três das quatro cidades mais importantes do país, a correlação de poder mudar'', anima-se, prevendo para Morales algo entre 59% e 64% dos votos válidos - as pesquisas dão 59% como teto, ainda assim mais do que teve em 2005.
Os governistas ainda alimentam esperança de ferir a ''meia lua'', com a eventual derrota do governador de Tarija. Para eles, o cenário mais otimista é que, a partir daí, as duas partes possam começar a negociar.
Radicalismo
De todo modo, o governo deve amargar derrotas grandes. E embora Rubén Costas diga que sua vocação é procurar ''uma solução pacífica'', não é isso que dizem seus aliados da União Juvenil Cruzenha, que impediram o desembarque de Morales em Santa Cruz nesta semana e prometem mais.
O governo de Costas acaba de anunciar que quer nomear funcionários locais para órgãos federais, como o Instituto de Reforma Agrária e a Alfândega. O maior temor é que o radicalismo do leste seja respondido pelos aliados radicais de Morales, cobrando do presidente o referendo que falta para aprovar a nova Constituição, que os opositores rejeitam.
''Enquanto não houver vontade genuína de dialogar, nada adianta'', diz o ex-presidente Carlos Mesa, que, ao renunciar em 2005, acusou as duas pontas do país de não o deixarem governar e agora quer se relançar como terceira via.


