O presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, disse ontem que se o Congresso aprovar a possibilidade de reeleição para o presidente Fernando Henrique Cardoso estará gerando uma crise política no País ‘‘como a de 1961’’. Brizola usou as mais de três horas do debate na comissão especial da Câmara que discute a reeleição para criticar o governo e a interferência de Fernando Henrique para aprovar a emenda, defender um plebiscito e fazer campanha contra a privatização da empresa Vale do Rio Doce.
‘‘Conceder a reeleição para o atual presidente seria levar o País a uma crise de consequências imprescindíveis como em 1961’’, alertou, referindo-se à mudança do sistema de governo durante mandato em vigor. Jânio Quadros havia renunciado e forças políticas respaldaram a posse de João Goulart adotando o parlamentarismo. Em 63, após um plebiscito, voltava a vigorar o sistema presidencialista. ‘‘Essa responsabilidade pesará da mesma forma nos ombros do presidente da República e do Congresso, vai ser muito difícil que a população venha a entender essa posição, quando o Congresso nega o direito de um plebiscito.’’
Para contrapor-se à tese da reeleição-já, Brizola chegou a sugerir o impeachment de Fernando Henrique. O ex-governador propôs que o Congresso, em vez de dar a oportunidade a Fernando Henrique de se reeleger sem desincompatibilizar-se do cargo, examine os atos políticos do governo, o Proer e o dinheiro público usado para salvar bancos e a venda das estatais. ‘‘Seria inevitável um processo de responsabilidade, o que poderia levar ao afastamento do presidente do governo’’, afirmou.
O reduto de brizolistas concentrado no auditório foi o pano de fundo para a exposição de Leonel Brizola. Frequentemente aplaudido por suas idéias e frases de efeito, o ex-governador divertiu até aos parlamentares quando comparou o presidente Fernando Henrique Cardoso ao ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev, numa alusão aos rumos da perestroika (a abertura econômica da extinta União Soviética). ‘‘O presidente Fernando Henrique é um homem débil, fraco; sempre o achei parecido com o Gorbachev, que assimilou a ideologia do inimigo e foi explorado em sua vaidade pelo poder econômico’’, disse. ‘‘O Plano Real dele (de Gorbachev) chama-se perestroika.’’
Ardoroso opositor do Fernando Henrique, o ex-governador do Rio extrapolou o tempo em todas as suas falas e fez piadas criticando o governo. ‘‘Podemos até deixar que as raposas entrem no galinheiro, mas vamos colocar uma cordinha no pescoço delas e deixar que as galinhas vivam’’. Protestando contra a política econômica adotada pelo governo, sugeriu que ‘‘qualquer dia estaremos fazendo um samba-enredo da globalização’’. Sobre a possibilidade de Fernando Henrique disputar a reeleição no cargo, comentou: ‘‘Quem é que ganha de cavalo de comissário?’’
A tropa de choque do governo apontou uma contradição do ex-governador carioca. O deputado Sílvio Torres (PSDB-SP) lembrou que Brizola, quando governador do Rio de Janeiro, pleiteou que as eleições diretas reivindicadas em 1984 fossem adiadas para 86, a fim de preparar sua candidatura. Brizola respondeu que o deputado estava desinformado sobre seu passado e justificou que, na época, todos dependiam das decisões dos militares. Brizola, que defende a reeleição para os futuros governantes, liberou a bancada do PDT para negociar com o PTB uma possível fusão, com vistas à sucessão de 1998 e com Jaime Lerner disputando a Presidência da República.

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