Fiquei uns quinze anos em agitos de rua: aumento da carne, da passagem de bonde e de ônibus, assassinato de jornalista, reforma agrária enfim tudo era motivo para auê. Aprendi, com esse exercício, que vinha desde os tempos de acadêmico de Direito, a identificar tiras, delegados, comissários da polícia política. Fiz pactos de não agressão com um deles, Miguel Zacarias, sobre espaços que poderíamos ocupar, criando a ''terra de ninguém'', campo de fato ''desmilitarizado'' entre nós e a Dona Justa nas tensões.
O Miguel nos tratava com extrema cordura. Na visão dele, do governo, todos éramos comunistas e de alguns ouvi dizer, nos tempos do jornal ''Ultima Hora'', que o delegado chegava a oferecer armas aos coleguinhas. Miguel era corajoso e enfrentou uma tocaia de comunas no Rio Grande do Sul em que acabou matando alguns dos ''camaradas'', tratamento da época que precedeu o ''companheiro''. Ademais ele tinha um irmão, o médico Manif, que atuava em Criciúma e que era um humanista de primeira (ganhou recentemente prêmio da Academia Brasileira de Letras por haver se aprofundado como um Champolion no linguajar euclidiano de ''Os Sertões'') e também olhado como simpatizante pela elite dos mineradores.
Nessa relação do Zacarias com os jornalistas havia um outro e estratégico ponto de convergência: a boemia e daí até um clima de relações afetuosas. Em 1964, quando, por causa da aplicação do Ato Institucional e IPM no Exército, éramos tratados como contagiosos e não nos davam empregos, vivíamos na expectativa de prisões. Alguns dos nossos andavam carregando pacotes de cigarros e a escova e pasta de dentes no bolso. Isso gerava uma compreensível paranóia e eu com duas filhas menores, uma de oito e outra de sete anos, vivia tentando preparar o espírito da minha mulher para a prisão a qualquer momento. E foi numa noite em que falava justamente disso que bateram na janela da sacada. Olhei e vi, lá fora, o Sérgio, meu conhecido, filho do Zacarias.
- É, dona Lucy, os homens estão aí! Eu costumava criar esse clima em função da ansiedade e certamente superdimensionando a minha importância como ativista ou simpatizante, não sei qual das classificações que me atribuíam. Minha mulher, visceralmente otimista, observava que eu teatralizava demais as coisas, em nada contribuindo para o clima de melodramatismo em que eu mergulhava.
Argumentei que ela subestimava um assunto sério, pois certamente o Miguel Zacarias mandara justamente o filho lá em casa para não criar qualquer tipo de constrangimento à família e em especial às crianças. Respirei fundo e fui até a porta atender o Sérgio e mostrando naturalidade forçada disse que o estava esperando ao que ele respondeu, de bate pronto, que desejava falar com alguém do quarto andar, quando o meu apartamento era no térreo. Sérgio só percebeu meu embaraço anos depois. É um registro burlesco das tensões de 64.

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