Na campanha eleitoral de 1965 (Bento versus Pimentel) um grupo de atingidos pelo Ato Institucional resolveu bitrucar num restaurante da Praça Osório. Um fascistóide que tocava a casa ou gravou nossas conversas ou simplesmente as delatou. Resultado: ''O Estado do Paraná'', que era do Pimentel, botou em manchete que nós, os ''comunistas'', estávamos com Bento. Lá estávamos com mais uma ficha eu, Valmor Marcelino, Edésio Passos, Leon Barcellos, Milton Cavalcanti, Luis Alberto Dalcanalle etc.
ZÉ NINGUÉM No meio da campanha o Jorginho Eisembach, em Apucarana, pichou o Pimentel e esse disse que não poderia ocupar-se de um ''Zé Ninguém''. O Valmor Giavarina ideologizou o saque numa alegoria de luta de classes. Fizemos comitês do Zé Ninguém em vários municípios. A vereadora Maria Clara Brandão Tesseroli montou um deles e nós fomos à inauguração. A milicada, que nos enquadrava nos IPMs, estava lá. Mesmo perto deles sugeri uma passeata do Zé Ninguém e, além dos militares, outros colegas, não tão dispostos, dispersaram. A passeata foi um sucesso e um tira de polícia, o Macedinho, quase dava umbigadas numa dama da alta roda que estava engajada e ia na frente do desfile.
QUEBRA-QUEBRA No dia da apuração acompanhávamos num ''aparelho'' da Cruz Machado, perto da casa de Adherbal Fortes de Sá, jornalista indiciado, as apurações via rádio da Polícia Militar. Uns oficiais do Exército, quando viram a promiscuidade de PMs (do nosso lado) e esquerdistas, entraram em pane e, ao se aproximarem do receptor, levaram uma mijada do Anfrísio Siqueira, dono do arsenal. Ao comemorarem a vitória em Curitiba, onde Bento ganhou, os pimentelistas foram apupados por lavadores de carros e engraxates na Boca Maldita com quebra de carros e ameaça de incêndio num comitê. Dias mais tarde a Dops recebeu ordem para pegar depoimento meu e do Anfrísio como se fôssemos os autores da baderna. O Aimoré, comissário, que era também da ''Boca'', veio, meio sem jeito, pedir que eu me apresentasse ao temido Ozias Algauer.
''ANJO DA GUARDA'' Lá chegando, o delegado, inquisitorial, pediu um relato dos meus passos desde a passeata do Zé Ninguém. Falei-lhe sobre teoria do Direito, que ele tinha obrigação de conhecer, pela impossibilidade do nexo causal entre o resultado das avarias e a passeata, isso é a relação físico-subjetiva entre uma coisa e outra. E contei-lhe que estava no cinema junto com o major Paulo Lenzi, da Aeronáutica, e que na saída vimos os cacos de vidros de automóveis na rua. Ele ficou branco quando falei no major que eu conhecia dos papos da Avenida Luis Xavier. Ligou para ele pelo telefone e o homem do outro lado confirmou. Eu não tinha a menor idéia de que o oficial era da 2 secção da Aeronáutica, setor de inteligência na varredura da subversão. Imaginem como nos vigiávamos. Pelo jeito, merecemos os revolucionários e golpistas que temos.

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