A recontagem de 28 das 399 urnas da eleição de 1996 para prefeito de Cascavel, que deveria ser realizada inteiramente no domingo, prosseguiu ontem, e ainda não é assunto encerrado. Uma urna com suspeita de fraudes irá para o Tribunal Regional Eleitoral (TRE). O prefeito Salazar Barreiros (PPB) porém dificilmente estará sob ameaça de ceder a cadeira para o oponente de 96, deputado estadual Edgar Bueno (PDT). Os dois dão prosseguimento a conflitos políticos que marcam a história do município desde a primeira eleição.
A nova contagem, determinada pelo Tribunal Superior Eleitoral a pedido de Bueno, ocorreu um ano e meio depois da eleição, período no qual as urnas ficaram nos cofres do Banco do Brasil. Das 28 urnas que deveriam ter sido recontadas domingo, 27 foram conferidas. Outra havia ficado no banco em um malote com numeração errada, mas foi localizada e levada ontem para o Fórum, para nova escrutinação. Ao final, Salazar acrescentou quatro votos, e ampliou a vantagem que havia obtido (151 votos, ou 0,15%) para 155.
Falta oficializar o resultado de uma urna recontada, na qual Salazar teve vantagem de 158 votos (mais que sua vantagem global). Na recontagem, fiscais de Bueno identificaram dezesseis assinaturas iguais no mapa de votação, o que pode significar que alguém votou por eleitores ausentes. Peritos da Justiça Eleitoral farão agora exame grafotécnico, para conferir a fraude, mas uma hipotética anulação destes votos não afetará a vitória de Salazar. Bueno, porém, acha que a revisão das 399 urnas poderia ‘‘mudar tudo’’.
A população de Cascavel imaginava que a recontagem ajudaria a encerrar a agressiva disputa entre Bueno e Salazar, mas eles continuam trocando acusações e críticas. O prefeito não conta com o único deputado estadual da cidade - ligado ao governador Jaime Lerner (PFL) e de quem teve apoio em 96 - para ações conjuntas de interesse da comunidade. Embora hoje em partidos distintos, Lerner se dá muito melhor com Bueno que com Salazar. O prefeito até acusa o deputado de dificultar seus contatos com o governo.
O relacionamento ‘‘vai ser como tem sido, ele não tem nenhum interesse em ajudar nossa administração’’, resume o prefeito, embora, para efeitos públicos diga que Bueno nunca se colocou ‘‘à disposição’’. O deputado, por sua vez, afirma que estará ‘‘à disposição se for procurado’’. Objetivamente, nenhum dará o primeiro passo. Para aprofundar ainda mais o conflito político, Salazar anuncia publicamente que nos próximos dias fará revelações sobre a origem do financiamento da campanha de Bueno.
Mas as divergências políticas em Cascavel são mais antigas. Em 1992, o eleito foi Fidelcino Tolentino (PMDB), que esteve sob graves acusações de Salazar, o prefeito na época e que havia sido seu aliado; hoje, mais que adversários, são inimigos. Ao ser eleito, em 1988, Salazar foi alvo de denúncias graves do concorrente, Jacy Scanagatta (PFL), como compra de votos - processos da época nunca foram concluídos. Em 1952, o primeiro prefeito de Cascavel, José Neves Formighieri (PTB), venceu por 1 voto o concorrente e houve suspeitas de fraude nunca eliminadas.

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