Receita coíbe lavagem de dinheiro
Lu Aiko Otta
Agência Estado
De Brasília
Al Capone foi um mafioso que, apesar de todos os crimes cometidos, só acabou atrás das grades porque caiu nas malhas do Fisco Americano, o Internacional Revenue Service (IRS). O que nos Estados Unidos é uma tradição de 70 anos, só começou a funcionar no Brasil em 93, quando a Receita Federal montou uma área de inteligência. No momento, há 86 investigações em curso, sendo que apenas uma, de lavagem de dinheiro do narcotráfico, na fronteira com o Paraguai, envolve valor estimado em R$ 20 bilhões.
Desde sua instalação, a equipe de inteligência foi responsável por autuações da ordem de R$ 4 bilhões. Todo o trabalho de espionagem sobre sonegadores e envolvidos com o crime organizado, é mantido sob rigoroso sigilo.
A equipe da inteligência, que desde 96 foi transformada na Coordenação de Pesquisa e Investigação (Copei), é formada por cerca de 400 pessoas, entre fiscais e colaboradores em outras áreas da Receita. Muitos foram treinados nos Estados Unidos, ao lado de fiscais do próprio IRS e de agentes do Federal Bureau of Investigation (FBI).
Nosso trabalho é colher informações sobre o que está oculto, disse o coordenador-geral de Pesquisa e Investigação da Receita, Deomar Vasconcellos de Moraes. Se as suspeitas são confirmadas, a área de Fiscalização da Receita entra em cena. Para apoiar o trabalho da Copei, foi montada uma rede de informações, dentro e fora do governo, com o objetivo de descobrir aquilo que o contribuinte omitiu seja no Brasil, seja no exterior. Esse trabalho está por trás, por exemplo, da descoberta de fraudes que levaram à prisão cinco importantes empresários no Rio Grande do Sul e do bloqueio dos bens de um deles no Uruguai.
Também foi responsável pela apreensão de R$ 22 milhões em eletroeletrônicos de uma cadeia de lojas, às vésperas do Natal do ano passado. Uma das 86 investigações em curso é sobre operações de lavagem de dinheiro do narcotráfico na fronteira com o Paraguai nas quais, estima-se, foram movimentados perto de R$ 20 bilhões, envolvendo bancos, casas de câmbio e agências de turismo. Outra, curiosa, é sobre a possibilidade de dinheiro desviado dos cofres públicos no Brasil ter virado mansão à beira mar numa badalada ilha do Pacífico. Os detalhes, porém, não podem ser revelados porque são protegidos pelo sigilo fiscal.
Os métodos de trabalho da Copei são segredo para o público, mas estão todos consolidados em manuais de procedimento internos, para que ninguém saia da linha. Tomamos vários tipos de precaução para que a investigação não seja utilizada como forma de pressão ou perseguição, garantiu Deomar Vasconcellos.
Ele explicou que, de maneira geral, todo tipo de informação é útil para a Copei, de colunas sociais a cadastro de sócios de marinas, do banco de dados de companhias aéreas a cartórios em Miami. Temos uma rede de informações nacional e internacional bastante abrangente, disse o coordenador.
Além das fontes externas de informação, a Copei utiliza cruzamentos de informações de dentro da própria Receita para colher indícios de sonegação. Por exemplo: os valores recolhidos de Imposto de Importação sobre a compra de matérias-primas por parte de uma indústria podem ser comparados com o faturamento da empresa. Se parte da produção estiver sendo escoada por baixo dos panos, esse cruzamento de dados o mostrará.
A Copei vasculha onde há mais chance de encontrar sonegação e fraudes de grande valor. As investigações são feitas em sigilo, sem que o contribuinte saiba. Estamos atentos a tudo, disse Deomar Moraes. Se há sinais exteriores de riqueza e potencialidade de tributação oculta, fazemos um relatório. O caso da apreensão da carga de eletroeletrônicos em dezembro de 98 é um exemplo.
Ele não revela por que, mas a rede de loja que comercializaria esses produtos havia chamado a atenção da Copei. Os fiscais descobriram que as importações estavam sendo feitas por diversas empresas que, ao repassar os produtos para a cadeia de lojas, deixavam de recolher o IPI. O esquema só dava certo porque essas pseudo-empresas funcionavam por no máximo dez meses.





