Receio de desgaste faz deputados votarem sem desagradar eleitor
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sábado, 08 de maio de 2010
Denise Madueño e Christiane Samarco<br> Agência Estado 
Brasília - Com um olho nos financiamento eleitorais e o outro nas urnas, a Câmara mostrou na semana passada que os deputados, a dois meses do início da campanha, não estão mais sob o comando do Planalto, dos líderes e dos partidos e seguem apenas a regra do cada um por si.
O que interessar a grandes grupos de eleitores - como aposentados, policiais e servidores - e a corporações que possam ajudar a financiar campanhas tem aprovação garantida. Não importa o custo para os cofres públicos.
Na noite de terça-feira passada, em menos de duas horas, os deputados criaram uma despesa adicional de R$ 5,6 bilhões para o Orçamento do ano que vem ao elevar de 6,14% para 7,7% o reajuste de 8 milhões de aposentadorias acima do salário mínimo e ao derrubar o fator previdenciário - um mecanismo criado no governo Fernando Henrique Cardoso para desestimular as aposentadorias precoces.
Para as próximas semanas, a Câmara já tem outra pauta salgada, na linha que combina agrados aos eleitores e facilidades para empresários que podem ajudar na campanha. Vêm aí o projeto de regulamentação dos bingos, a continuidade da votação da proposta de emenda constitucional que fixa o piso salarial dos policiais militares, civis e integrantes do corpo de bombeiros e mais um lobby que dará um reajuste de pelo menos 50% nos salários do Judiciário e vai custar em torno de R$ 6 bilhões.
O resultado das votações, com seguidas derrotas do Planalto, tem a ver com o período eleitoral, mas também é o reflexo da chegada ao fim do segundo mandato do governo. Neste momento, com as alianças já encaminhadas, as emendas e os cargos no Executivo viraram moedas desvalorizadas e o balcão de negociações com a Presidência não tem mais serventia, porque o poder vai trocar de guarda.
A única meta é a reeleição, a sobrevivência política, como dizem os parlamentares, e o mais importante é não contrariar os eleitores. O Senado segue a Câmara porque lá também há 54 senadores (2/3) disputando a reeleição.
O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), anunciou que vai tentar barrar a entrada na pauta de qualquer projeto que represente aumento nos gastos públicos. Estamos sofrendo pressão para voltar à discussão de propostas de emenda constitucional problemáticas, que têm apelo eleitoral, reclama Vaccarezza. O problema é que o presidente da Casa, o deputado Michel Temer (PMDB-SP), candidato a vice de Dilma Rousseff (PT), não tem mais poder para barrar o que os eleitores querem ver aprovado.
O líder do DEM na Câmara, deputado Paulo Bornhausen (SC), avalia que o Congresso já sofre pressão normalmente, mas aponta a situação atual como resultado da soma da atuação de líderes governistas. O instinto de sobrevivência dos parlamentares é que prevalece nas votações. É cada um por si, afirma. O entendimento geral é que basta o projeto chegar ao plenário para ser aprovado.


