Brasília - O ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, que pediu demissão do cargo na segunda-feira, afirmou, ontem de manhã, que a decisão do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, de não remeter pedido de intervenção no Espírito Santo para o Supremo Tribunal Federal (STF) foi política e não jurídica.
Visivelmente irritado, Reale Júnior disse que se sentiu desautorizado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso pelo fato de não ter recebido sequer um telefonema dele ou de Brindeiro sobre a decisão.
''Estranho inclusive que ele (Brindeiro) tome a decisão junto com o presidente da República, mesmo porque o procurador manifesta-se nos autos. Se ele tinha a sua manifestação, que fizesse nos autos. Deixou de ser uma manifestação jurídica para ser política'', desabafou.
''Eu não posso ser desautorizado porque não terei forças para continuar dando ordens à força-tarefa (implantada no Rio), à Polícia Federal, porque as ordens que eu dou hoje poderão ser desfeitas amanhã, sem meu conhecimento.'' Reale Júnior afirmou ainda que, após a decisão de Brindeiro, seria um ministro ''meia boca'' se continuasse no cargo.
Para exemplificar como está a situação no Espírito Santo, Reale Júnior disse que o presidente da Assembléia Legislativa capixaba, deputado José Carlos Gratz, responde a 14 processos por envolvimento com o narcotráfico e com o crime organizado, e mesmo assim ainda está dando aulas de Direito. Agora, com a decisão de arquivar o pedido de intervenção federal naquele Estado, segundo ele, o crime organizado saiu fortalecido. ''O crime organizado deve estar em festa'', lamentou.
Reale Júnior também lamentou sua saída do Ministério da Justiça principalmente pelo fato de que estavam sendo articuladas ações sociais nas áreas de risco, como nas favelas no Rio de Janeiro, para tentar acabar com o domínio do crime organizado.
''Eu lamento sair do ministério. Nós aqui constituímos uma família. Todos unidos num clima de amizade e entendimento. Eu formei uma equipe excepcional'', disse.

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