Na lição do imortal senador e filósofo italiano Norberto Bobbio, a Política pode ser entendida como forma de atividade ou práxis humana, estreitamente ligada ao poder. Este é tradicionalmente definido em função dos meios adequados para a obtenção de qualquer coisa (Hobbes) ou, o ''conjunto dos meios que permitem alcançar os efeitos desejados'' (Russel). Como espécie de dominação de outros seres humanos, o poder é uma forma de relação entre dois sujeitos, dos quais um impõe ao outro a própria vontade e lhe determina um tipo de comportamento.
Embora com certa reserva pode-se concordar com o ceticismo do escritor Júlio de Camargo para quem a Política ''é a arte de governar com o máximo de promessas e o mínimo de realizações''.
Quais seriam as razões essenciais que podem fascinar os indivíduos para a conquista do poder e nele permanecer? Já foi dito com muita sabedoria que é mais fácil encontrar uma mulher resignada a envelhecer do que um político decidido a se retirar de cena.
Penso que uma das razões é o idealismo como sentimento que pode motivar grandes gestos de renúncia aos bens e interesses pessoais em favor da sociedade. Nesse quadro estão os notáveis líderes da História. Um deles, John F. Kennedy, afirmou em seu discurso de posse para a nação americana (1961): ''Não pergunte o que os Estados Unidos podem fazer por você; pergunte o que você pode fazer pelos Estados Unidos''. A vontade de transformar dramas e tragédias do cotidiano em estágios de alegria e felicidade do povo, tem alimentado projetos de administradores visionários e políticos inesquecíveis.
Outra razão é o locupletamento, ou seja, a ação de aumentar o patrimônio pessoal em prejuízo do Estado e da comunidade. Surgem nesse cenário vivo e atualíssimo os esquadrões dos mensaleiros, sanguessugas e outras espécies daninhas da estirpe política. Eles são, ao mesmo tempo, o senhor e o objeto da corrupção como entidade sacralizada em muitos núcleos do poder político.
Existe, ainda, uma categoria intermediária. É o profissional que vive da arte e da ciência política. Ele se elege, se reelege ou é nomeado para cumprir seguidos ou alternados mandatos nos mais diversos degraus das esferas parlamentares e administrativas. Ele conhece os segredos e os caminhos para transitar entre o Legislativo e o Executivo. Em alguns momentos o mandato é exercido com idealismo; em outros, com oportunismo. O profissional tanto ajuda a abrir e pavimentar uma estrada, no interesse público, como tem a competência e prestígio para nomear parentes e amigos, no mais simples exemplo de nepotismo. Ele vive a ''paixão do poder'' que, segundo Machado de Assis, ''é a mais forte de todas'' (Memórias Póstumas de Braz Cubas).
Mas, categorias a parte, é fundamental que o eleitor aprimore, cada vez mais, o universo da soberania popular, representada pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com igual valor para todos os brasileiros. E que, ano para ano, eleição para eleição, possa com o voto consciente nas pessoas melhor qualificadas, reverter uma sentença de maldição proferida pelo imperador Dom Pedro II, em palestra com seus ministros: ''As eleições, como elas se fazem no Brasil, são a origem de todos os nossos males políticos'' (Citado por Humberto de Campos, no livro O Brasil Anedótico).
René Ariel dotti, advogado e professor universitário, foi secretário de Estado da Cultura do Paraná

mockup