Curitiba - A eleição para o Senado em 2026 poderá ter uma situação inédita no Paraná: pela primeira vez, tudo indica que as duas vagas do estado mudarão de mãos. Além da indefinição de Flávio Arns (PSB) e Oriovisto Guimarães (Podemos) sobre a tentativa de reeleição, outro fator de peso ajuda a embaralhar ainda mais o cenário: a possibilidade de Ratinho Junior (PSD) concorrer à Presidência da República. Visto como favorito na corrida pelo Senado, o governador abrirá espaço para uma disputa acirrada caso consiga consolidar sua candidatura ao Planalto.

As pesquisas divulgadas até agora são conflitantes e já colocaram em boas posições, além de Ratinho Junior, o ex-senador Alvaro Dias (Podemos) – levantamento do Paraná Pesquisas divulgado em julho – e Cristina Graeml (Podemos), segunda colocada na eleição municipal em Curitiba em 2024 (pesquisa Neokemp também divulgada em julho). Apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, o deputado federal Filipe Barros (PL) é outro que apareceu na liderança, em um levantamento da Ágili Pesquisas, em maio.

Há uma tendência de que os dois nomes escolhidos pelos paranaenses venham a ser de direita, em função do perfil conservador do eleitorado. Neste quadro, também apareceriam com chances Paulo Martins, vice-prefeito de Curitiba que se filiou recentemente ao Partido Novo, e o deputado federal Pedro Lupion (PP), líder da bancada do agronegócio na Câmara. O ex-procurador Deltan Dallagnol (Novo) também já foi citado em pesquisas, mas poderia enfrentar uma nova batalha judicial caso tenha a inelegibilidade confirmada (ele teve o mandato de deputado federal cassado em maio de 2023).

A esquerda poderia se beneficiar no caso de Ratinho Junior concorrer ao Senado. Se a direita lançar muitos candidatos e os votos ficarem pulverizados, o ex-governador e ex-senador Roberto Requião, que se filiou ao PDT, poderia correr por fora e ficar com a segunda vaga. O PT tem vários nomes: além da ministra Gleisi Hoffmann e do presidente da Itaipu Binacional, Ênio Verri, os deputados federais pelo partido – Carol Dartora, Elton Welter, Lenir de Assis, Tadeu Veneri e Zeca Dirceu. Mas algum deputado estadual também pode entrar na disputa, diz a direção estadual.

“Essa grande mobilização pelo Senado decorre de três coisas: em primeiro lugar, de Ratinho Junior, franco favorito, ainda estar tentando pleitear seu espaço como presidenciável. Em segundo, pela percepção que a maioria do eleitorado do estado deve votar na direita, abrindo espaço para que a segunda vaga seja de direita. Em terceiro, os dois nomes que estão saindo não possuem base eleitoral, hoje, para que sejam competitivos em uma reeleição, tornando o cenário aberto”, diz o cientista político e pesquisador Mateus Coelho Martins de Albuquerque.

PROJETO BOLSONARO

Em junho, durante ato na Avenida Paulista, Jair Bolsonaro disse que seu projeto para 2026 é obter a maioria na Câmara e no Senado. Os bolsonaristas vêm trabalhando esse projeto em vários estados, para eleger os dois senadores – com a maioria nas duas Casas, poderiam aprovar mudanças na Constituição e destituir ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). Em abril, durante visita à ExpoLondrina, o ex-presidente disse que a primeira vaga do Senado ficaria com Filipe Barros, e a segunda com Ratinho Junior. Se concorrer à Presidência, Bolsonaro poderia apoiar Cristina Graeml ou Paulo Martins – desde que não esteja preso.

Para Mateus Albuquerque, após a definição de Ratinho Junior deverá haver uma aglutinação dos candidatos conservadores. “Deverá haver um influxo desses nomes caso Ratinho Junior saia candidato, inclusive devido a composições partidárias para o Iguaçu, coligações. Em todo caso, é muito difícil que um nome que não seja de esquerda ganhe essa eleição justamente por essa tendência de influxo. Deverão sobrar um ou no máximo dois nomes competitivos de direita além de Ratinho e um destes tenderá a pegar a segunda vaga”, diz o doutor em Ciência Política. “A possibilidade de que o Paraná possa eleger um senador de centro-esquerda devido à divisão dos votos da direita na segunda vaga ajudará nesse provável processo de influxo.”

Cientista político e professor da PUC Londrina, Mário Sérgio Lepre também acredita que as duas vagas deverão ficar com o campo conservador. “As duas vagas deverão ficar com nomes ligados ao Bolsonaro, uma ao menos. Mas os candidatos ligados a ele vão sentir o peso da campanha. Com ele preso, não poderá vir fazer campanha”, afirma. Com o ex-presidente fora da campanha, outros candidatos poderão reivindicar seu apoio, como fez Cristina Graeml na campanha pela Prefeitura de Curitiba – oficialmente, Bolsonaro apoiava Eduardo Pimentel (PSD).

“Se o Bolsonaro estivesse livre para participar da campanha, ele apontaria os candidatos, mas nessa situação pode haver uma divisão dos votos, se a direita lançar muitos nomes. Pode favorecer alguém da esquerda, só que a esquerda não poderia estar dividida, o que também é difícil”, avalia Mário Sérgio Lepre.

No caso de Ratinho Junior disputar a Presidência, um nome que poderia ganhar força é o de Paulo Martins, ligado ao governador e ao ex-presidente. “O governador tem vários nomes em alguns partidos e no PSD, mas o Paulo Martins é muito ligado a ele. No Novo, Martins tem dado sinais de que pretende disputar. E o partido está se estruturando no Paraná, agrega um núcleo bolsonarista, mas tem um certo verniz”, diz Lepre.

À direita, outro grupo político com força eleitoral no Paraná é o ligado ao deputado federal Ricardo Barros, do PP. A assessoria de Barros informou que o PP definiu o deputado federal Pedro Lupion como candidato ao Senado e os nomes da ex-governadora Cida Borghetti e do ex-prefeito de Londrina Marcelo Belinati, como pré-candidatos ao governo. “O Pedro Lupion tem uma vinculação com o Centrão, mas se for apoiado pelo Ratinho Junior pode ser eleito. A bancada do agronegócio é muito forte e ele (Pupion) tem um nome forte no estado”, afirma o professor da PUC Londrina.

Presidente do PT no Paraná, o deputado estadual Arilson Chiorato diz não acreditar que dois nomes da direita serão eleitos em 2026. “Vários nomes da direita podem favorecer, inclusive a esquerda ter um candidato ao Senado. Eu acho que é impossível ter dois bolsonaristas no Senado em um desenho como esse. Nós vamos aqui fazer a eleição de um senador, estamos muito confiantes nisso.”

Chiorato adianta que o PT terá candidato próprio – o que poderá inviabilizar um possível apoio a um nome do PDT, como Roberto Requião ou o deputado estadual Goura. “Vamos ter um candidato ao Senado do PT, vamos discutir no dia 13, quando se compõe o novo diretório do partido. Tem vários nomes do partido que podem estar à disposição para fazer essa discussão. Temos uma grande chance e vamos ter um projeto para o governo. Mas tudo ainda será discutido, um plano de governo para o Paraná, um pré-candidato ao governo, um pré-candidato ao Senado e alianças.”

Já Filipe Barros diz que a chance de dois bolsonaristas serem eleitos em 2026 é grande. “Os números registrados pelas pesquisas são importantes, mas ainda mais relevante é o próprio respaldo que a população do Paraná tem dado para minha pré-candidatura. Visitando tanto o interior quanto a capital em agendas recentes com o PL, vi que o paranaense também nota a inoperância de grande parte do Senado diante da escalada autoritária do STF e entende que é hora de ter uma Casa que de fato cumpra seu papel”, avalia o deputado federal. “Pelo apoio maciço já demonstrando por nosso estado ao presidente Bolsonaro e às bandeiras do conservadorismo, penso que temos boas condições de contarmos com dois senadores de direita.”

TARIFAÇO E IMAGEM


A taxação dos produtos brasileiros imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece não ter atingido a imagem de Ratinho Junior. “Nesse cenário, o posicionamento do Ratinho Junior foi o mais correto, se comparado ao do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que teve um posicionamento no sentido de que o governo federal teria a prerrogativa de negociar com o governo Trump. A estratégia correta foi adotada pelo Ratinho Junior", diz o cientista político e professor universitário Doacir Quadros.

Em função do perfil do eleitorado, explica Quadros, o candidato não deve “politizar” certos temas. “A imposição dessas tarifas decorreu de uma motivação política e não econômica e é uma prerrogativa do governo federal entrar na negociação com o governo norte-americano. Pelo perfil característico do eleitor brasileiro, que é um eleitor volátil, que tende a não votar exclusivamente por critério ideológico, os candidatos devem evitar a politização de certos temas que são sensíveis. Cautela é extremamente importante para a disputa de uma campanha presidencial.”

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