Ratinho Junior e Moro podem "herdar espólio" do bolsonarismo
Analistas ouvidos pela FOLHA apontam que políticos do Paraná e o governador de São Paulo disputam espaço na direita
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sábado, 14 de janeiro de 2023
Analistas ouvidos pela FOLHA apontam que políticos do Paraná e o governador de São Paulo disputam espaço na direita
José Marcos Lopes, especial para a Folha 

Dois políticos paranaenses - o governador Ratinho Junior (PSD) e o senador eleito Sergio Moro (União Brasil-PR) - e o governador de São Paulo, Tarcisio Freitas (Republicanos), são nomes que poderiam “herdar o espólio” do bolsonarismo. É o que avaliam analistas políticos ouvidos pela reportagem de FOLHA. Para eles, mesmo com capital político e força no Congresso, a direita precisará se reinventar depois dos ataques contra a sede dos Três Poderes em Brasília, no último domingo.
No dia dos ataques, Moro chegou a acusar o governo Lula de “reprimir protestos e a opinião divergente”, mas em seguida afirmou que “invasões de prédios públicos e depredação não são respostas”. Tarcísio e Ratinho Júnior condenaram os ataques e participaram da reunião convocada por Lula na segunda-feira.
“O movimento do Sergio Moro no segundo turno das eleições (quando declarou apoio à reeleição de Jair Bolsonaro) mostrou que ele espera ser herdeiro do espólio. Não acredito que tenha sucesso. Tarcísio de Freitas, mais moderado, pode ser essa nova liderança. Depende, porém, de uma boa gestão”, avalia o cientista político e professor universitário Elve Cenci.
Para a doutora em Ciência Política e professora universitária Karolina Roeder, os atos da extrema direita devem levar a uma mudança por parte dos setores conservadores. “Pode vir a ter um comportamento diferente de outros atores da direita, como a gente teve do Ratinho Junior e do Rafael Greca (prefeito de Curitiba filiado ao PSD), além dos outros governadores, que estão de acordo sobre a importância da defesa da democracia contra atos golpistas.”
A especialista criticou a posição do deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), que no dia dos ataques, em entrevista à CNN, atribuiu a culpa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “É uma declaração muito preocupante vinda de um deputado federal eleito legitimamente. É preocupante esse tipo de sinalização, tivemos durante quatro anos o Bolsonaro incitando esse tipo de ação que ocorreu em Brasília.”
Em sua conta no Twitter, Barros condenou as invasões. “ É inaceitável que as manifestações tenham saído do controle acarretando depredação das sedes dos Três Poderes”, escreveu. “Repudio toda violência e depredação em Brasília, mas culpar somente o governo Ibaneis (Rocha, governador afastado do Distrito Federal) é um erro”, afirmou o deputado, que questionou a ausência da Força Nacional, convocada na véspera pelo ministro da Defesa, Flávio Dino.
A invasão do Palácio do Planalto, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso Nacional, o que configura tentativa de golpe, tende a reduzir o capital político do ex-presidente Jair Bolsonaro, que obteve o apoio de mais de 58 milhões de eleitores em outubro passado. Segundo pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira, 93% da população brasileira condena os ataques.
A tentativa de golpe foi condenada por partidos que até dezembro integravam a base de Bolsonaro no Congresso e até pelo PL, partido do ex-presidente. O PP emitiu nota para condenar os "atos criminosos contra a democracia" e o Republicanos, que também fazia parte da base, disse "repudiar qualquer manifestação que ultrapasse os limites democráticos”. União Brasil, Novo, Podemos, Cidadania, MDB e PSDB, além dos partidos de esquerda, também repudiaram as ações.
“Durante os quatro anos de governo Bolsonaro, tivemos uma certa aproximação entre políticos de direita e extrema direita. Depois dos ataques, vimos a sinalização de líderes da direita a favor da democracia. São atores em certa medida oportunistas, que até o fim do governo Bolsonaro estavam ao lado do ex-presidente, e que vão se descolar um pouco do bolsonarismo. Não tem descolar o que aconteceu do bolsonarismo”, afirma a cientista política e professora universitária Karolina Roeder.
Elve Cenci, analista político e professor de ética e filosofia, lembra que boa parte da base de Bolsonaro vai apoiar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “Até 31 de dezembro tínhamos o presidente, boa parte do parlamento, empresários, influenciadores e parte da opinião pública em sintonia. O poder atraiu e uniu a extrema direita e a direita. A despeito do número elevado de parlamentares alinhados com pautas de direita e eleitos na onda bolsonarista, a maioria estará na base lulista. São parlamentares do centrão em busca de resultados políticos.”
Levando-se em conta os partidos que integraram a coligação de Lula em outubro e os que ganharam ministérios, como PSD, MDB, PDT e União Brasil, o novo governo deverá ter o apoio de cerca de 280 deputados, o que obrigará o presidente a atrair o apoio de parlamentares de partidos como PL e PP. Apesar do desgaste na imagem, esses partidos terão força no Congresso – elegeram 99 e 47 deputados, respectivamente. “A direita estará politicamente forte para barganhar com Lula, porém fraca para ficar na oposição”, diz Elve Cenci.
Isolamento
O movimento rumo ao centro deverá isolar o bolsonarismo no cenário político tradicional, avaliam os especialistas. “Os atos do último domingo desmascararam o discurso pacífico dos grupos mais radicais. Poucos deputados defenderam. A maioria quer se distanciar. O terrorismo é indefensável”, diz Elve Cenci. “O bolsonarismo, que é maior do que o Bolsonaro, tende a se reposicionar. Bolsonaro não fará ação política sistemática e tende a aparecer eventualmente. Foi um deputado inexpressivo durante quase três décadas.”
Karolina Roeder lembra que, de acordo com o levantamento do Datafolha, 7% dos brasileiros dizem concordar com uma tentativa de golpe e atos de depredação. “Não é um índice tão baixo quanto deveria dentro dos parâmetros civilizatórios, mas as pessoas comuns são contra esse tipo de atitude, ainda mais do jeito que a gente viu, sem precedentes na história da democracia brasileira”, avalia. “Mancha aquilo que já não é razoável, porque o bolsonarismo vem há muito tempo dizendo o que é.”
Para a especialista, a comunicação bolsonarista deverá perder fôlego a partir de agora. Ela cita como exemplo dessa perda de fôlego a versão divulgada em redes de extrema direita, segundo a qual “infiltrados” foram os únicos responsáveis pela depredação do patrimônio público – apesar dos vídeos divulgados pelos próprios apoiadores de Bolsonaro, que comemoravam a invasão e a depredação.
“Apesar de eles usarem as redes sociais de forma muito efetiva, mobilizando pessoas, acredito que tem limite, porque uma hora as pessoas deixam de acreditar”, diz a cientista política. “No domingo, primeiro eles estavam apoiando (a depredação), depois falaram que eram petistas infiltrados. As pessoas não são tão afetadas na sua capacidade cognitiva para acreditar nisso.”


