Rasera tinha 'passe livre' nos 3 poderes, diz Kessler
Curitiba - O coordenador da Promotoria de Investigação Criminal (PIC) em Curitiba, Paulo Kessler, afirmou ontem à FOLHA que o policial civil Délcio Rasera é apenas a ''ponta do iceberg'' no esquema de escutas telefônicas ilegais, e confirmou que há participação de pessoas dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário no caso. As participações ocorreriam de duas maneiras. Parte das pessoas solicitava algum serviço de grampo a Rasera e se tornava ''usuária'' do esquema. A outra parte tinha ''objetivos em comum'' com Rasera. ''O objetivo era se manter no poder'', afirma Kessler.
O coordenador disse que as investigações ainda não foram concluídas e que não poderia portanto ''apontar nomes'', mas confirmou que há parlamentares envolvidos. ''Havia uma promiscuidade grande nas estruturas dos poderes. Os serviços que o Rasera prestava eram uma prática comum.'' Rasera está preso desde setembro e no início da semana teve mais um habeas corpus negado. Hoje está prevista na Vara Criminal de Campo Largo, onde o caso corre em segredo de justiça, a audiência das testemunhas de acusação levadas pelo Ministério Público (MP).
Até agora, 20 pessoas já foram denunciadas pelo MP a partir das investigações da PIC, incluindo Rasera, apontado como o comandante da suposta quadrilha. ''Rasera é um policial civil que se especializou em determinado tipo de investigação. Daí se tornou investigador particular e se aproveitou da estrutura do Executivo. Ele tinha passe livre lá dentro. E não é criação do atual governo não. Ele faz serviços há, no mínimo, cinco anos. Está claro que as pessoas se valiam dessa eficiência dele'', disse. ''Rasera era bem relacionado. Frequentava a Casa Civil, a Assembléia Legislativa. Era dono de informações privilegiadas.''
Kessler disse que o policial civil foi nomeado pelo governador Roberto Requião (PMDB) em 2003 para trabalhar na Casa Civil. ''Ele não cumpria expediente. Viajava com frequência sem dar satisfação a ninguém'', disse Kessler. O governador nega qualquer envolvimento com Rasera.
Questionado sobre o andamento das investigações, o coordenador disse que é ''muito material'', mas que o caso corre ''normalmente''. ''Ele passou muitos anos tranquilo. São muitos documentos e fitas para a gente analisar'', disse ele. A segunda etapa das investigações deverá ser concluída dentro de 60 dias, quando outras pessoas serão denunciadas pelo MP. (C.S.)





